Marinho diz que juros pesaram mais que tarifaço no emprego em 2025


A alta da taxa básica de juros teve impacto maior sobre a geração de empregos em 2025 do que o tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta quinta-feira (29) o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. A declaração foi feita durante a divulgação dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

“O tarifaço impactou, claro, mas acho que o impacto dos juros foi maior que o do tarifaço. Do ponto de vista global da indústria, o efeito dos juros é mais danoso”, afirmou Marinho em coletiva de imprensa.

De acordo com o ministro, os efeitos da sobretaxa americana se concentraram em setores específicos da economia e foram parcialmente mitigados por medidas adotadas pelo governo, como a abertura de novos mercados e planos de apoio a empresas afetadas. Para Marinho, a Taxa Selic (juros básicos da economia), atualmente em 15% ao ano, teria efeito mais amplo sobre investimentos e contratações.

“O Banco Central esperava e trabalhou para diminuir o ritmo do crescimento. O problema é que isso reflete em queimar orçamento para pagar juros”, disse Marinho, voltando a criticar a política monetária e relacionar a desaceleração do mercado de trabalho à elevação dos juros.

Marinho afirmou ainda que janeiro de 2026 apresenta números preliminares positivos, mas alertou que a manutenção dos juros elevados pode comprometer uma parte significativa do ano.

“Com juros altos, é natural que investidores posterguem decisões”, concluiu.

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Empregos

O Brasil criou 1,279 milhão de vagas formais ao longo de 2025, resultado 23,73% inferior ao registrado em 2024, quando foram abertas cerca de 1,677 milhão de vagas. O desempenho é o pior desde 2020, ano marcado pela pandemia, quando o saldo foi negativo.

Os dados do Caged mostram que o saldo positivo de 2025 foi resultado de 26,6 milhões de admissões e 25,3 milhões de desligamentos. Em dezembro, tradicionalmente marcado por fatores sazonais, o mercado de trabalho registrou fechamento líquido de 618 mil vagas, número que, segundo Marinho, está em linha com o padrão histórico do mês, devido ao fim de contratos temporários e ajustes de custos pelas empresas.



EBC

Malafaia pede rejeição de denúncia sobre ofensa ao comando do Exército


O pastor Silas Malafaia pediu nesta quinta-feira (29) ao Supremo Tribunal Federal (STF) a rejeição da denúncia na qual a Procuradoria-Geral da República (PGR) o acusa dos crimes de calúnia e injúria contra o comandante do Exército, general Tomás Paiva. 

No ano passado, Malafaia foi denunciado ao Supremo pela procuradoria por falas proferidas durante uma manifestação em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorrida em São Paulo.

Durante o ato, o pastor chamou generais de “frouxos, covardes e omissos”. Ele também disse que os militares “não honram a farda que vestem”.

De acordo com a defesa, o pastor usou “palavras fortes” para criticar os generais de forma genérica, sem citar nominalmente Tomás Paiva.

“Reitere-se que não houve ofensas, mas sim críticas. E as críticas apresentadas pelo denunciado foram genéricas, não se voltando contra pessoas específicas ou identificando quem quer que seja, e, obviamente, não tendo o intuito de desonrar a suposta vítima”, argumentou a defesa.

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Os advogados também acrescentaram que o pastor não pode ser julgado pelo STF porque não tem foro privilegiado. Além disso, a defesa disse que Malafaia se retratou das declarações.

Com o recebimento da manifestação da defesa, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, poderá solicitar uma data para o julgamento da denúncia contra o pastor.



EBC

Brasil cria 1,279 milhão de postos de trabalho em 2025, aponta Caged


Pressionada pelos juros altos e pela desaceleração da economia, a criação de empregos formais caiu no Brasil em 2025. Os dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que 1.279.498 postos de trabalho com carteira assinada foram abertos no ano passado.

O indicador mede a diferença entre contratações e demissões. O saldo é 23,73% menor em relação a 2024, quando o país tinha criado 1.677.575 empregos. Os dados trazem ajustes, quando o Ministério do Trabalho registra declarações entregues fora do prazo pelos empregadores e retifica os dados de meses anteriores.

Dezembro

Apenas em dezembro, mês tradicionalmente marcado por demissões, foram eliminados 618.164 empregos, 11,29% a mais em relação ao mesmo mês de 2024. No mesmo mês do ano anterior, tinham sido fechados 555.430.

Em relação aos meses de dezembro, o total foi o pior desde dezembro de 2020, quando foram eliminadas 156.243 vagas. A mudança da metodologia do Caged não torna possível a comparação com anos anteriores a 2020.

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Setores

Mesmo com a queda em dezembro, na divisão por ramos de atividade, todos os cinco setores pesquisados criaram empregos formais em 2025.

  • Serviços: 758.355 postos;
  • Comércio: 247.097;
  • Indústria (de transformação, de extração e de outros tipos): 144.319;
  • Construção civil: 87.878;
  • Agropecuária: 41.870.

Destaques

Nos serviços, a criação de empregos foi puxada pelo segmento de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, com a abertura de 318.460 postos formais. A categoria de administração pública, defesa e seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais abriu 194.903 vagas.

Na indústria, o destaque positivo ficou com a indústria de transformação, que contratou 114.127 trabalhadores a mais do que demitiu. Em segundo lugar, ficou o segmento de água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e descontaminação, que abriu 14.346 vagas. A indústria extrativa abriu 9.554 vagas em setembro

Regiões e estados

Todas as cinco regiões registraram abertura de vagas formais no ano passado.

>> Veja abaixo o desempenho de cada região:

  • Sudeste: 504.972 postos;
  • Nordeste: 347.940;
  • Sul: 186.126;
  • Centro-Oeste: 149.530;
  • Norte: 90.613.

Na divisão por unidades da Federação, todas registraram saldo positivo em 2025. Os destaques na criação de empregos foram São Paulo (+311.228 postos); Rio de Janeiro (+100.920) e Bahia (+94.380).

Os menores saldos de criação de emprego foram registrados no Tocantins (+7.416 postos); Acre (+5.058) e Roraima (+2.568).



EBC

Polícia Federal investiga fraude no INSS com falsos indígenas


A Polícia Federal, em conjunto com a Coordenação-Geral de Inteligência do Ministério da Previdência Social (Força-Tarefa Previdenciária da Bahia), com a Força Nacional e com o apoio das polícias militar e civil da Bahia deflagraram, nesta quarta-feira (28), a Operação Monã.

A ação policial tem o objetivo de apurar um suposto esquema de fraude previdenciária envolvendo a concessão indevida de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) a pessoas que se passaram por indígenas, na Bahia.

As investigações policiais apontam que pessoas não pertencentes à etnia estariam recebendo aposentadoria rural e salário maternidade, dentre outros benefícios, sem cumprir os requisitos legais.

Ao todo, foram cumpridos três mandados de busca em Santa Cruz Cabrália, no extremo sul da Bahia (próximo a Porto Seguro) e Eunápolis (BA), no interior do estado.

O objetivo da apreensão dos documentos, dispositivos eletrônicos e outros elementos de prova, é esclarecer os fatos e responsabilizar os envolvidos.

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Investigação

As apurações indicam que, para obter irregularmente os benefícios, os participantes que simulavam ser indígena assinavam declarações falsas. Os documentos, posteriormente, foram validados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Os fraudadores ainda obrigavam os beneficiários falsos a contratar empréstimos consignados. Os valores eram divididos entre os criminosos. Este suposto esquema foi apelidado de “Green Card Pataxó”.

Caso fique comprovado, os investigados responderão por estelionato qualificado, associação criminosa e possíveis outros crimes, se descobertos no decorrer das investigações.

 




EBC

Haddad diz que STF deve lidar com impacto do Caso Master na Corte


O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse hoje que acredita que o Supremo Tribunal Federal vai encontrar caminhos para lidar com o impacto que o caso Master causou na imagem da Corte. O ministro falou em entrevista ao portal Metrópoles nesta quinta-feira (29).

“O presidente Fachin está com o melhor melhor ânimo para dar uma resposta a isso da maneira adequada e vai encontrar o caminho junto aos seus pares de fazer. E isso vale para não só para o Supremo, isso tem que valer para todas as instituições. Se você está com um problema institucional, você tem que ter os mecanismos internos de saneamento. E você não pode temer sanear, porque é nesse gesto que você recupera a credibilidade institucional”, disse o ministro. 

Segundo o ministro, o almoço entre ele, o presidente Lula e o ministro Dias Toffoli, que é o relator do caso Master no STF, foi sobre esse tema. O presidente defendeu que é preciso dar uma resposta à sociedade, afirmou Hadadd. De acordo com Haddad, o presidente Lula destacou que o Brasil tem uma oportunidade de fazer o trabalho de combate ao crime e à corrupção “pelo andar de cima”.

“É uma oportunidade que nós temos de dar uma resposta para a sociedade E por isso que eu insisto: quando você, diante de um problema, responde da maneira adequada, você fortalece as instituições”, defendeu. 

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Além do caso Master, o ministro falou na entrevista sobre outros assuntos. Entre eles, defendeu mudanças na Constituição para fazer integração em nível nacional para combater o crime organizado. Sobre o comunicado do Banco Central, que indicou a possibilidade de corte dos juros em março, o ministro disse que a redução vai ajudar na dívida pública, que subiu 18% no ano passado.

“O anúncio de que vai começar a cortar juro vai fazer essa trajetória se acomodar em um patamar razoável. Porque,  na verdade, pagando 10% de juro real, não tem superávit primário compatível com a estabilização da dívida”, pontuou. 

Haddad afirmou que vai sair do cargo em fevereiro e que o substituto vai ser definido pelo presidente Lula. O número 2 da Fazenda, Dario Durigan, é o principal cotado.



EBC

Atividade urbana concentrou maioria do trabalho escravo em 2025


O balanço do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) das operações em 2025 apontam que 2.772 pessoas foram resgatadas em situação de trabalho análogo à escravidão. Pela primeira vez, a maior parte dos trabalhadores, 68%, exerciam atividade nos centros das cidades.

“O trabalho escravo contemporâneo não está restrito a uma atividade econômica específica. Embora tradicionalmente haja mais resgates no meio rural, em 2025 o número de trabalhadores resgatados no meio urbano foi maior”, explica a coordenadora-geral de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Análogo ao de Escravidão e do Tráfico de Pessoas, Shakti Borela.

O setor da construção civil foi onde houve o maior número de resgate, com 601 casos em obras de alvenaria e outros 186 em construções de edifícios e prédios. Outras atividades que também registraram muitos resgates foram a administração pública com 304 casos, o cultivo de café, com 184, e a extração e britamento de pedras e outros materiais para construção, com beneficiamento associado, com 126 resgates.

De acordo com o MTE, a maior parte dos trabalhadores resgatados têm idade na faixa etária de 30 a 39 anos, são homens e com baixa escolaridade. Entre os resgatados, 83% se autodeclaram negros (pretos ou pardos).

Para a diretora do Departamento de Fiscalização do Trabalho, Dercylete Loureiro, esse perfil revela trajetórias marcadas por vulnerabilidades históricas, que expõem essa parte da população a condições análogas à escravidão por décadas.

Os estados que mais registraram resgate foram Mato Grosso, com 607; Bahia, 482; Minas Gerais, 393, e São Paulo, com 276 trabalhadoras e trabalhadores resgatados.

Direitos

Após as operações, todos os trabalhadores puderam acessar o direito legal ao Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado (SDTR), pago em três parcelas no valor de um salário mínimo e foram encaminhados aos serviços públicos, como os de assistência social. De acordo com o Ministério do Trabalho, foi garantido o pagamento de mais de R$ 9 milhões em verbas rescisórias às vítimas.

Ao todo foram realizadas pelos auditores-fiscais 1.594 ações de combate ao trabalho análogo à escravidão em 2025, que além dos resgates também assegurou direitos trabalhistas a mais de mais de 48 mil trabalhadores e trabalhadoras.

Denúncias

Para denunciar violações de direitos dos trabalhadores não é necessário se identificar, qualquer pessoa pode acessar de forma anônima pela internet, pelo telefone 158 ou pelo Disque 100.



EBC

Inflação do aluguel sobe 0,41% em janeiro, mas tem queda em um ano


O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), conhecido como “inflação do aluguel”, começou 2026 com alta de 0,41%. O resultado volta ao campo positivo depois de ter apresentado queda de 0,01% em dezembro.

No entanto, no acumulado de 12 meses, o indicador recua 0,91%, marcando o terceiro mês seguido de retração nas janelas de um ano. Em janeiro de 2025, quando o IGP-M subiu 0,27%, o acumulado chegava a 6,75%.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (29) pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro.

O IGP-M é chamado de inflação do aluguel porque o resultado acumulado costuma ser base para cálculo de reajuste anual de contratos imobiliários. Além disso, o indexador é utilizado para reajustar algumas tarifas públicas e serviços essenciais.

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Componentes

Os pesquisadores levam em conta três componentes para apurar o IGP-M. O de maior peso é o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que mede a inflação sentida pelos produtores e responde por 60% do IGP-M cheio.

Em janeiro, o IPA subiu 0,34%, puxado principalmente pelas altas do minério de ferro (4,47%), carne bovina (1,37%) e tomate (29,5%).

Outro componente do IGP-M é o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que responde por 30% do indicador. Em janeiro, o IPC subiu 0,51%. As maiores pressões de alta no bolso das famílias vieram do curso de ensino fundamental (3,83%), curso de ensino superior (3,13%) e gasolina (1,02%).

O terceiro componente medido pela FGV é o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que ficou 0,63% no mês. Dentro do INCC, o item materiais, equipamentos e serviços subiu 0,34%; e a mão de obra, 1,03%.

Aluguel vai cair?

Apesar de ser conhecido como a inflação do aluguel, o IGP-M acumulado negativo não é certeza de que os aluguéis serão reajustados para baixo. Isso acontece porque alguns contratos incluem a expressão “reajuste conforme variação positiva do IGP-M”, o que faz, na prática, que só haja reajuste se o índice for positivo.

Para chegar ao IGP-M do mês, a FGV faz coleta de preços em Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. O período de levantamento foi de 21 de dezembro de 2025 a 20 de janeiro.

 



EBC

Incêndio destrói empresas e creche na zona leste de São Paulo


O fogo tomou conta de uma fábrica de colchão na madrugada desta quinta-feira (29), no Jardim Helena, na zona leste de São Paulo. Não houve feridos.

O Corpo de Bombeiros, que foi acionado às 2h31, enviou 12 viaturas para o local e 37 agentes atuaram na ocorrência. O fogo se espalhou e atingiu uma oficina mecânica, que também ficou destruída, e uma academia, que foi parcialmente atingida e corre risco de desabamento. O fogo chegou ainda a uma creche.

No momento os bombeiros fazem o trabalho de rescaldo.

 



EBC

Sisu 2026: candidatos já podem conferir resultado individual


O resultado individual da chamada regular do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2026 já está disponível para consulta no Portal Único de Acesso ao Ensino Superior do SisuO acesso é feito com o login da plataforma Gov.br.

Os estudantes selecionados dentro das vagas disponíveis na chamada regular deverão realizar a matrícula a partir de 2 de fevereiro, no período indicado no edital da instituição pública de ensino superior. 

O Sisu tem como objetivo democratizar o acesso a instituições públicas de educação superior (IES) que aderiram ao processo seletivo, de todo o país.

Lista de espera

Os candidatos não selecionados que queiram participar da lista de espera devem manifestar interesse a partir desta quinta-feira (29) até a próxima segunda-feira (2), também pelo Portal Acesso Único.

A convocação da lista de espera segue a ordem de classificação da chamada regular, mas só inclui os candidatos que manifestaram interesse na lista.

A convocação será feita diretamente pelas instituições em que o estudante se inscreveu.

É possível participar da lista de espera de apenas uma opção de curso. O candidato deve consultar os canais oficiais da instituição de interesse e observar as regras e os prazos estabelecidos em edital.

Sisu

A maioria das instituições participantes do Sisu é da rede federal de educação superior, com destaque para universidades e institutos federais.

Pela primeira vez, nesta edição, quem participou de pelo menos uma das três últimas edições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – 2023, 2024 ou 2025 – conseguiu se inscrever para concorrer a vagas oferecidas pelas instituições que aderiram ao processo seletivo.



EBC

Luto e fome: viúva tenta se reerguer após operação mais letal do Rio


A mulher fotografada enquanto fechava os olhos do cadáver do marido em meio a uma fila de corpos tem um nome: Fernanda da Silva Martins.

A imagem do repórter fotográfico da Agência Brasil Tomaz Silva com o pranto da viúva, de 35 anos, rodou o mundo e foi republicada em jornais e sites do país e do exterior para retratar a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro

Deflagrada pelo governo do estado do Rio para cumprir mandados e coibir a facção criminosa Comando Vermelho, a Operação Contenção deixou 122 mortos entre 28 e 29 de outubro de 2025, incluindo cinco policiais. 

O confronto teve reflexos em toda a cidade se estendeu madrugada adentro na Serra da Misericórdia, região desabitada entre os complexos do Alemão e da Penha, onde familiares de mortos e ativistas de direitos humanos denunciam ter havido sinais de execução.

Já autoridades policiais alegaram, na época, que os mortos são criminosos que reagiram e atentaram contra a vida de seus agentes. Para o governador, Cláudio Castro, a incursão foi um sucesso.

Depois da ação, moradores do Complexo da Penha retiraram cerca de 80 pessoas mortas de uma área de mata e os enfileiraram em uma rua na Vila Cruzeiro, onde permaneceram por horas, diante de vizinhos e familiares, até que fossem encaminhados ao Instituto Médico Legal, no centro da cidade.

>> Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece

Por respeito à condição de Fernanda, no momento da foto, a Agência Brasil preferiu evitar abordar parentes das vítimas, seguindo a política editorial da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Passados esses três meses, a reportagem a reencontrou na comunidade do Complexo do Alemão onde mora com três dos quatro filhos, de 15, 11 e 8 anos. 

A imagem dela feita pela Agência Brasil retrata seu maior momento de luto, afirma. Apesar das condições em que foi fotografada, ela disse que “sua dor ganhou importância” com a repercussão. 

“Ali, sentiram a minha dor. Muita gente [me] crucificou, mas outras me ligaram, se comoveram. A foto foi de um sentimento muito real”, avaliou.


Rio de Janeiro (RJ), 15/01/2026 – Fernanda da Silva Martins posa para fotografia durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Fernanda da Silva Martins durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“Não importa se acharam que eu era mãe dele. Eu perdi o amor da minha vida, pai dos meus filhos, o homem que me deu esperança”.

Ao relembrar o momento, ela se entristece com o estado do corpo do qual se despediu. Ela conta que seu marido era membro da facção, mas o cadáver tinha sinais que iam além do que era esperado em uma troca de tiros.

“Ele não morreu [só] de tiro. Ele levou facada no braço e teve o pescoço quebrado. O tiro de misericórdia deram depois, nas costas”, revelou. “Mas eu não recorri a nada nem a ninguém, não tenho apoio”.

Depressão e fome

Desde que perdeu o companheiro com quem estava há 14 anos, o primeiro desafio do dia dela é acordar. Fernanda sofre com depressão e síndrome do pânico e chegou a ficar internada após uma tentativa de suicídio desde que ficou viúva. 

“Eu saí do tamanho (manequim) 44 para o 36. Eu passo dias sem comer, choro, desmaio, tem sido difícil”, disse.

São seus dois filhos mais novos, Anna Clara, de 11 anos, e Ivan, de 8, que a mantêm de pé, desabafa. A filha mais velha, de 18 anos, mora com a avó, e segundo mais velho, de 15, com o pai.

“Hoje, [juro] por Deus, levantei pela força da misericórdia. O menino não tinha o que comer. Ele me acordou: ‘mamãe, tô com fome’. Tem dois dias que não durmo, vivo à base de remédios”.

O pouco que a família tem vem do Bolsa Família, mas, com duas crianças em casa, a comida acaba rápido.

“Meu marido, antes, pagava tudo. Agora, a gente vive mais de miojo, porque eu não tenho mesmo”.

Para buscar o sustento da família, também pesa o fato de Fernanda ter apenas sete anos de estudo, com ensino fundamental incompleto, e nunca ter trabalhado de carteira assinada. 

“Mas eu já trabalhei. Eu olhava uma senhora idosa, trabalhei em lanchonete, trabalhei de diarista com minha mãe. Trabalhei no carnaval, vendendo cerveja. Este ano que não vou, não consigo ainda encarar o mundo, sabe?”, justifica. “Eu também tive quatro filhos e cuidava sempre deles”.

Sem a merenda para os filhos durante as férias escolares, o dinheiro encurtou ainda mais e uma das soluções foi mandar Clara para a casa da avó paterna, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. 

O menino que ficou, Ivan, toma banho de barril para aliviar a sensação da última onda de calor na cidade e implora para ir à praia. 

“Ele pergunta: ‘mãe, quanto é a passagem para eu ir?’ Eu respondo: ‘é caro, são quatro passagens, eu não tenho condição'”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Dezenas de corpos na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Relacionamento

Quando começou a se relacionar com o ex-marido, Leonardo Fernandes da Rocha, ela conta que não sabia que ele integrava a cadeia de comando da facção. Com o tempo, a família passou a depender dessa renda.

“Eu trabalhava na padaria e ganhava um salário. Mas tudo era meu. Do portão para dentro, era tudo ele. Botava comida em casa, pagava as contas, tratava bem meus filhos mais velhos. Não faltava nada. Internet, comida, gás, roupas, era tudo ele, eu gastava comigo”.

A época mais difícil que passaram foi a do diagnóstico de câncer de Ivan, na época, com 3 anos. Fernanda conta que, juntos, ela e Leonardo tentaram traçar planos para ele fora do crime, mas não conseguiram outra forma de garantir renda suficiente para a sobrevivência e o tratamento. 

“Meu marido queria ter saído dessa vida. Ele vendeu moto, vendeu o fuzil, queria vender a nossa casa para pagar o tratamento do Ivan, mas não dava. O médico falou assim para ele: o senhor pode vender até a sua alma, mas não vai dar [para custear o tratamento]. Então, ele foi ficando [no tráfico], e eu fui relevando [o tráfico e as traições]. Eu orava”, lamentou.

Depois de muita espera e até ações judiciais, ela conta que o caso finalmente foi encaminhado para o Instituto Nacional de Câncer (Inca), e uma cirurgia salvou a vida do filho.

“Meu filho ficou meses internado. O Leonardo [o pai], apesar de dar os pulos dele, de me chamar de maluca, de doida, de surtada, porque eu ia atrás dele, ele me apoiava, pagava os remédios e, no dia da operação, chegou [ao hospital] em dez minutos”, lembrou. 

 


Rio de Janeiro (RJ), 22/12/2025 - Retrospectiva 2025 - Foto feita em 28/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contensçao.
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Mulher chora diante de dezenas de corpos na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Apoio dos pais

Fernanda recebeu a reportagem na laje da casa dos pais. Com pés de maracujá, uma bananeira e perfumado por ervas, como manjericão e hortelã, o espaço é o mais fresco da casa, mantido pelo pai de Fernanda, Jocimar, um vendedor de 55 anos.

“Aqui não tem passarinho, mas toda hora vem uma borboleta”, brinca ela, enquanto procura se proteger do sol a pino.

A casa dos pais dela é uma das mais simples da rua, conta. “A nossa casa é a mais pobre da rua porque, por muito tempo, meu pai foi dependente químico”

“Não parava nada aqui dentro. Tudo ele vendia. Pegava crediário nas Casas Bahia e vendia móvel, televisão, telha… A minha [primeira] filha ia fazer um festão de um aninho. Aí, ele vendeu a roupa dela todinha, uma roupinha jeans e uma sandalinha gladiadora. Depois, eu creio, por causa dessa história, da minha filha, ele se arrependeu e parou”.  

O acontecido já tem quase 20 anos, e Fernanda há tempos perdoou. É o pai e a mãe dela, Sônia, uma diarista de 59 anos, que a socorrem quando falta comida na mesa. 

 


Rio de Janeiro (RJ), 15/01/2026 – O aposentado, Jocimar Martins e sua filha, Fernanda da Silva martins posam para fotografia durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O aposentado, Jocimar Martins e sua filha, Fernanda da Silva Martins, durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“Se não fosse pela minha família, eu não estaria mais aqui. E eles ajudam como podem”.

Sobre o futuro, Fernanda sonha em sair do Alemão.

“Queria dar uma vida melhor para os meus filhos. Não é que aqui seja ruim, mas queria que meus filhos avançassem, tivessem um futuro que eu não tive”, disse. 

Ela também gostaria de montar um pequeno salão, “fazer manicure e pedicure”. 

“Já fiz curso de cílios, sobrancelhas, tenho diploma, só falta botar em ação”. Hoje, a preocupação é viver um dia após o outro e colocar comida na mesa enquanto duram as férias.



EBC