Rio leva vacinação a parques e aeroportos até 12 de fevereiro


A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS Rio) anunciou neste domingo (18) a disponibilização de novos pontos de vacinação para os cariocas contra doenças como sarampo, covid-19 e gripe, em diferentes locais da cidade, até o dia 12 de fevereiro.

A medida foi iniciada na última quinta-feira (15) e reforça a estratégia de levar a vacina até o cidadão, em locais onde haja grande circulação de público, facilitando o acesso à imunização.

As vacinas contra covid-19, gripe, febre amarela, tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) e hepatite B estão disponíveis, além do Aeroporto Santos Dumont, nos novos pontos extras de vacinação:

  • Parque Realengo Susana Naspolini, em Realengo, dias 22 e 30;
  • Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim – Galeão, na Ilha do Governador, de 21 de janeiro a 12 de fevereiro;
  • Parque Pavuna, na Pavuna, dia 22 de janeiro;
  • Parque Rita Lee, na Barra Olímpica, nos dias 22, 27 e 29 deste mês;
  • Parque Oeste, Inhoaíba, zona oeste, dias 22, 27 e 29;
  • Parque Madureira, no bairro do mesmo nome, no dia 29;
  • Parque Piedade, em Piedade, dias 21, 24 e 30 de janeiro.

A secretaria informou ainda, por meio de sua assessoria de imprensa, que as vacinas estão disponíveis também nas 240 unidades de Atenção Primária, clínicas da família e centros municipais de saúde, além do Super Centro Carioca de Vacinação, unidades Botafogo (funcionamento de domingo a domingo, das 8h às 22h) e Campo Grande (no ParkShoppingCampoGrande, funcionando de domingo a domingo, de acordo com o horário do centro comercial).

Em caso de dúvidas, o órgão recomenda que o cidadão pode procurar uma unidade de saúde para as devidas avaliações e orientações.



EBC

Marcus D’Almeida é bronze em etapa do mundial de tiro com arco indoor


O brasileiro Marcus D’Almeida conquistou a medalha de bronze na primeira Etapa 1000 da Copa do Mundo de Tiro com Arco Indoor, realizada em Nîmes (França). D’almeida derrotou o francês Alexandre Desemery por 7 a 3 neste domingo (18).

Ele acabou sendo eliminado do caminho do ouro na semifinal pelo espanhol Andrés Mediel Temiño, por 6 a 4.

Durante a campanha neste torneio, concluída com a primeira conquista dele no ano, o atleta bateu o recorde brasileiro.

Os 596 pontos deram ao brasileiro também a posição de cabeça de chave número 1.



EBC

SUS vai vacinar profissionais de saúde contra dengue em fevereiro


O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou neste domingo (18) que cerca de 1,1 milhão de profissionais que atuam na atenção primária à saúde de todo o país poderão ser imunizados, a partir de 9 de fevereiro, com a vacina Butantan-DV, com tecnologia 100% nacional, desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante contra a arbovirose é o primeiro de dose única do mundo.

“São aqueles profissionais que atuam nas unidades básicas de saúde, que visitam as famílias, são os primeiros profissionais a receber quem tem sinal e sintoma de dengue”, anunciou o ministro da Saúde.

“Os primeiros cuidados são feitos pelos médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde, profissionais e equipes multifuncionais que estão cadastrados nas unidades básicas de saúde”, complementou.

O ministro explicou que a vacinação deste público será possível com a chegada de mais doses da Butantan-DV. O Instituto Butantan deve produzir e entregar até 31 de janeiro cerca de 1,1 milhão de doses adicionais desta vacina nacional contra a dengue, para garantir a imunização dos profissionais que atuam na linha de frente do Sistema Único de Saúde (SUS).

Os anticorpos da Butantan-DV oferecem proteção contra os quatro sorotipos do vírus da dengue. Os estudos clínicos indicam eficácia global de 74% da vacina brasileira, com redução de 91% dos casos graves e 100% de proteção contra hospitalização pela doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti.

Produção de mais doses

O governo federal quer ampliar gradualmente a vacinação em dose única para todo o país, para pessoas de 15 a 59 anos, o que depende da disponibilidade de novas unidades da vacina Butantan-DV, que foram encomendadas no mês passado pelo Ministério da Saúde.

Para acelerar a fabricação em larga escala do imunizante, o ministro divulgou que o Instituto Butantan firmou uma parceria de transferência de tecnologia à empresa WuXi Vaccines, da China.

Com a parceria, a expectativa do Ministério da Saúde é que a produção chinesa da vacina com tecnologia brasileira seja ampliada em até 30 vezes.

“Eles [diretores da WuXi Vaccines] se comprometeram com um cronograma de produção e de entrega. Nossa expectativa é de termos, neste ano ainda, em torno de 25 a 30 milhões de doses [da vacina Butantan-DV]”, estimou o ministro da Saúde.

O titular da pasta prevê que à medida que cheguem as novas doses importadas, o próximo passo do governo brasileiro será realizar a vacinação nacional do público de 15 a 59 anos, começando pela população mais velha (59 anos) e avançando até o público mais jovem (15 anos).

“Na medida que a gente começa a ter uma grande produção, isso vai entrar no calendário oficial [de vacinação] de forma permanente”, projeta o ministro.

Para acompanhar a produção das doses da vacina desenvolvida pelo Butantã, em março deste ano, técnicos do Ministério da Saúde devem viajar à China. “A gente quer ver essas doses de vacinas o mais rápido possível aqui do Brasil”.

Alexandre Padilha explicou também que o Instituto Butantan já tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fazer a avaliação da vacina Butantan-DV no público com mais de 60 anos e já começou o recrutamento de voluntários deste público.

“Nós estamos otimistas que também seja uma vacina segura para quem tem mais de 60 anos de idade, o que vai ser muito importante para o combate à dengue”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

 


Botucatu (SP), 18/01/2026 - O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, iniciou a vacinação contra a dengue com a primeira vacina 100% nacional, de dose única, desenvolvida pelo Instituto Butantan. Foto: Walterson Rosa/MS

Vacina contra a dengue de dose única, desenvolvida pelo Instituto Butantan. Foto: Walterson Rosa/MS

A declaração foi dada pelo ministro em Botucatu (SP), no início da campanha de vacinação em massa da população de 15 a 59 anos deste município. A iniciativa piloto ocorre também nas cidades de Maranguape (CE) e Nova Lima (MG), desde o último sábado (17). O objetivo é avaliar o impacto da imunização com o novo imunizante.

“Não tenho dúvida nenhuma que essa vacina 100% do Butantan pode ser uma grande arma internacional para combater a dengue em outros países no mundo”, disse Alexandre Padilha.

QDenga em todo o país

Para o público de 10 a 14 anos, o SUS oferece gratuitamente o imunizante internacional QDenga, com esquema vacinal de duas doses. 

O Ministério da Saúde afirma que o Brasil é o primeiro país do mundo a oferecer o imunizante no sistema público de saúde.

Neste domingo (18), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha anunciou a ampliação para todo o país da aplicação da vacina japonesa para esta mesma faixa etária. A expansão ocorre a partir da aquisição de mais estoques da farmacêutica japonesa Takeda.

“A gente comprou 9 milhões de doses, para 2026; mais 9 milhões de doses, para 2027. Ao todo 18 milhões [de doses]. O que permite que a gente possa distribuí-la em todos os municípios brasileiros.”

Aprovada em 2023 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a QDenga foi inicialmente disponibilizada em 2024 às crianças e adolescentes de 2,1 mil municípios considerados prioritários pelo governo do Brasil.

Com o aumento dos estoques, a vacinação da QDenga será feita em unidades básicas de saúde (UBS) do SUS dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros, exclusivamente ao público de 10 a 14 anos.

O ministro contabiliza que foram distribuídos e aplicados no Brasil, em 2024 e 2025, cerca de 10 milhões de doses da QDenga para o público infanto-juvenil.



EBC

Rio Acre supera cota de inundação em Rio Branco, mas deve baixar


O nível do Rio Acre na capital acreana, Rio Branco, já se encontra na marca de 1.455 cm (14,55 metros), acima do nível de inundação, de 1.400 cm. As informações foram divulgadas neste domingo (18) no boletim de alerta hidrológico da Bacia do Rio Acre (SAH Rio Acre), divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). A expectativa é que a situação estabilize ainda hoje.

Segundo explicou à Agência Brasil o pesquisador Artur Matos, do SGB, ocorreu uma cheia no Rio Acre no fim do ano passado, seguida de muita chuva no início de 2026, o que levou o nível a subir novamente.

“Mas com a chuva que já aconteceu, a gente está chegando no máximo hoje, e o nível do Rio deve se estabilizar, começando a cair ainda hoje ou amanhã”.

Matos esclareceu que, no SGB, o conceito de inundação significa que as primeiras casas já foram atingidas. “Alguma coisa já deve ter sido atingida em Rio Branco”.

Na capital do estado, o Rio Acre está atingindo seu pico, o que significa estabilização e queda a seguir. O pesquisador do SGB admitiu, por outro lado, que, se acontecer uma nova chuva, o nível do rio pode voltar a subir.

Já nos municípios de Xapuri, Brasiléia e Epitaciolândia, os níveis do rio apresentam valores abaixo da cota de alerta, de 1.250 cm e 980 cm, respectivamente, atingindo 1.168 cm e 584 cm.

“A onda de cheia já passou, o nível do rio já subiu e já desceu. Agora está descendo”.

Na última sexta-feira (16), o SGB alertou que o nível do rio Acre estava na marca de 1.399 cm e continuava a subir, com possibilidade de ultrapassar a cota de inundação em Rio Branco nas próximas horas, que de fato ocorreu. O monitoramento em tempo real pode ser acompanhado pelo Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Acre (SAH Acre).



EBC

Entenda as liquidações do Banco Master e da Reag


As liquidações do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, e da gestora de investimentos Reag, na quinta-feira (15) revelaram um dos episódios mais graves do sistema financeiro brasileiro. O caso envolve suspeitas de fraudes bilionárias, uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos, tentativas de socorro via banco público e tensões entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal de Contas da União (TCU) com o BC e a Polícia Federal (PF).

Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Master cresceu rapidamente ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com rentabilidade muito acima da média do mercado. Para sustentar o modelo, segundo investigadores, o banco passou a assumir riscos excessivos e a estruturar operações que inflavam artificialmente seu balanço, enquanto a liquidez real (dinheiro imediatamente disponível para ressarcir os investidores) se deteriorava.

As investigações da PF e os relatórios do BC apontam que o colapso do Master não foi apenas financeiro, mas também institucional. A conexão com a gestora Reag Investimentos, a tentativa de venda ao Banco de Brasília (BRB) e a pressão sobre órgãos de controle transformaram o caso em um xadrez complexo, com impacto direto sobre investidores e sobre a credibilidade das instituições.

1. Como funcionava o esquema financeiro

  •      Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações.
  •      Banco emprestava recursos a empresas supostamente laranja que aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag Investimentos.
  •      Esses fundos compravam ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflados.
  •      Banco Central identificou seis fundos da Reag suspeitos, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões.
  •      Dinheiro circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários até chegar aos beneficiários finais.

2. Esquema de pirâmide

  •      Para adiar a inadimplência, o banco concedia empréstimos com carência de até cinco anos.
  •      Novos CDBs eram usados para pagar investidores antigos, caracterizando um esquema Ponzi (pirâmide financeira).
  •      Master chegou a oferecer CDBs de até 140% da taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), nível considerado insustentável.
  •      Com as primeiras suspeitas sobre a credibilidade do banco em 2024, a captação secou e o caixa entrou em colapso.

3. Venda de carteira ao BRB

  •      Em busca de liquidez, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno.
  •      Operação existia apenas contabilmente, sem pagamento ou crédito real.
  •      BC analisou CPFs da carteira e concluiu que as operações não existiam.
  •      Mesma carteira foi revendida ao BRB por R$ 12 bilhões após manipulação da taxa de juros.
  •      Em setembro, Banco Central barrou a tentativa de venda de parte do Banco Master ao BRB.
  •      Proposta de venda do Master ao BRB, segundo a investigação, buscava fundir balanços e diluir a fraude em um banco público.

4. Intervenção e liquidação

  •      Banco Central limitou a captação do Master a 100% do CDI, paralisando o crescimento.
  •      Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a cobrir CDBs vencidos por meio de linha emergencial.
  •      Controlador tentou aportar recursos com a venda de ativos pessoais, sem sucesso.
  •      Banco foi liquidado quando não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais.

5. Papel da Reag Investimentos

  •      Fundos administrados pela Reag aparecem como peça central na sustentação do esquema.
  •      Reag é suspeita de facilitar constituição de empresas laranja para emprestar a fundos
  •      Fundos são investigados por supostamente terem valorizado ativos fictícios e pulverizado recursos.
  •      Posterior liquidação da gestora pelo BC é vista como desdobramento direto do caso Master.
  •      Após segunda fase da Operação Compliance Zero, BC decreta liquidação da Reag Investimentos

6. Tensão entre órgãos públicos

  •      Embora concentre apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro, a liquidação do Master desencadeou tensões entre órgãos públicos.
  •      Liquidação gerou questionamentos simultâneos no STF, TCU e no Congresso sobre decisões técnicas do BC.
  •      BC chegou a acordo com TCU para inspeção de documentos, desde que não comprometam sigilo bancário e prerrogativas da autoridade monetária.
  •      Ministro Dias Toffoli, do STF, que assumiu ações judiciais relacionadas ao Master, tentou fazer acareação que incluiria diretor de Fiscalização do BC, mas desistiu e mandou PF colher apenas depoimentos adicionais de Vorcaro e do ex-presidente do BRB.
  •      Após determinar que todo o material apreendido pela PF na Operação Compliance Zero ficasse custodiado no STF, Toffoli autorizou a análise pela Polícia Federal, com apoio da Procuradoria-Geral da República.

7. Impacto para os clientes

  •      Com a liquidação do Master, cabe ao FGC, fundo formado por recursos dos bancos, ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes.
  •      FGC estima desembolsar cerca de R$ 41 bilhões, cerca de um terço do patrimônio do fundo.
  •      Valor é o maior resgate da história do fundo, limitado a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
  •      Pagamento depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, o que ainda não foi feito dois meses após a liquidação.
  •      Fundos da Reag não têm proteção do FGC, mas cotistas podem escolher outra gestora para administrar recursos.
  •      18 fundos de pensões estaduais e municipais que investiram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras não serão ressarcidos porque esses investimentos não são cobertos pelo FGC

8. Por que caso é histórico?

  •      Episódio expôs falhas de fiscalização, uso indevido de fundos e pressão nas instituições.
  •      Escândalo levanta dúvidas sobre auditorias, agências de rating, que atestavam a saúde financeira do Master, e os limites da supervisão financeira.
  •      Caso deve tornar-se referência para mudanças regulatórias e para o debate sobre governança no mercado financeiro.

 


Brasília (DF), 18/01/2026 - Arte Banco Master. Arte Agência Brasil

 



EBC

Lucas Pinheiro é prata em Copa do Mundo de Esqui Alpino, na Suíça


O esquiador brasileiro Lucas Pinheiro Braathen ficou em segundo lugar no slalom na etapa da Copa do Mundo de Esqui Alpino neste domingo (18), disputada em Wengen, na Suíça. Com o resultado foi o melhor já obtido por um brasileiro na competição e seu quarto pódio na temporada.

O brasileiro fechou a prova com o tempo de 1min46s46 na somatória das duas descidas. Na primeira, Lucas registrou 53s39; na segunda, Lucas foi ainda melhor: 53s07.

No total, o esquiador ficou apenas 0,47 segundo atrás do campeão Atle Lie McGrath, da Noruega, que levou o ouro, com 1min45s99. Outro norueguês, Henrik Kristoffersen, foi bronze, com 1min46s80.

Às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno nas cidades italianas de Milão e Cortina d’Ampezzo, o brasileiro já soma três pódios. Além da medalha de hoje, ele foi ouro na prova de slalom na Finlândia; e prata em Alta Badia, na Itália, no slalom gigante.



EBC

Ativistas denunciam ‘blackface’ em fantasias de carnaval


Blackface de cabelo” é uma das expressões cunhadas pela página na internet Samba Abstrato para questionar o uso de perucas ou penteados afro por pessoas brancas no carnaval. Como as fantasias de “nega maluca” e de “indígena”, que ridicularizam identidades raciais, o uso de cabelos crespos como adereço por foliões brancos também é inadequado e racista, denunciam os ativistas que administram a página e se propõem a falar sobre o tema no carnaval há quase dez anos, pelo olhar de pessoas pretas.

Com linguagem cômica e satírica, a página denuncia o racismo que faz parte do branqueamento da festa momesca. Entre os principais sintomas desse processo apontados por eles está a escolha de mulheres brancas como passistas mesmo quando elas não sabem sambar ─ ou melhor, como alfineta a Samba Abstrato, mesmo que tenham o “samba na ponta do braço”. Essa escolha, em alguns casos, ainda vem acompanhada de simulacros de cabelos cacheados ou crespos.

Blackface é uma prática racista em que pessoas brancas utilizam artifícios como pintar a pele de preto, usar perucas ou outros acessórios para simularem de forma caricata características físicas de pessoas negras. O termo foi criado nos Estados Unidos, onde atores brancos usavam graxa, carvão e outras ferramentas para representarem pessoas negras no palco, de forma estereotipada e degradante. O “blackface de cabelo”, portanto, seria repetir esse tipo de agressão, transformando os cabelos crespos em imitações depreciativas. 

Apesar de avanços recentes, o cabelo afro foi taxado por anos como “cabelo ruim” ou “feio”. Em entrevista à Agência Brasil, a diretoria da Samba Abstrato lembra que, por isso, mulheres negras foram humilhadas e preteridas, por exemplo, de vagas de emprego. Quando chega o carnaval, no entanto, pessoas que não se envolvem na luta antirracista ou não valorizam a estética negra decidem se fantasiar de “mulher preta”. Para a Samba Abstrato, o blackface de cabelo é uma continuidade da fantasia de “nega maluca”. 

“Durante o ano inteiro, mulheres advogam a estética branca, usam cabelo liso, extremamente alinhado, considerado ‘bonito’, ‘adequado’, representativo do que elas são – o que está tudo bem –  mas aí, quando chega o carnaval, querem se fantasiar de mulher negra? Isso é caricato”, reflete a diretoria da Samba Abstrato, em uma resposta coletiva de seus integrantes à Agência Brasil.

“Enquanto mulheres negras são despedidas do emprego, discriminadas, impedidas de trabalhar, seja pelo crespo natural ou em outro estilo, como tranças, enquanto lutamos pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética [negra] fantasia. Chega domingo de carnaval, último dia, tomam banho, voltam a alisar”.  

Negação da presença negra

Ao avaliar o embranquecimento do carnaval por meio da participação de mulheres brancas, tirando o protagonismo das passistas das comunidades, a Samba Abstrato denuncia o que o professor de jornalismo e diretor da FAAC da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Juarez Tadeu de Paula Xavier, chama de “aniquilamento social e cultural” da população negra. Ele pesquisa as origens do racismo e as consequências atuais da prática, incluindo episódios no carnaval.


São Paulo (SP), 15/01/2026 - Professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da FAAC/Unesp. Foto: Natália Viola/Divulgação

Professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da FAAC/Unesp. Foto: Natália Viola/Divulgação

“Existe um  aniquilamento que é físico, os dados da letalidade de jovens negros mostram isso, e existe esse apagamento dos negros dos espaços de visibilidade”, afirma.

A negação da beleza e o aniquilamento da cultura negra são parte desse processo, explica. “É a mesma proposta do pós-abolição, de negar a presença negra na construção desse país. Os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação muito adversa”, relembra o professor.

Apesar de o carnaval, como conhecemos hoje, ser voltado, em termos estéticos e plásticos, para a televisão, como um produto a ser comercializado, pontua Xavier, a festa tem digitais negras.

Segundo o professor de comunicação social, as escolas foram construídas e mantidas por pretos e pardos como forma de sobrevivência coletiva. Ele lembrou que o pós-escravidão se refletiu em “exclusão produtiva” dessa população, que ficou sem acesso à renda e ao trabalho, por exemplo.

Para Xavier, reverter esse processo requer uma estratégia ampla de combate ao racismo e à misoginia, da qual faz parte a campanha “Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais”, do Ministério da Igualdade Racial (MIR), lançada na última segunda-feira (12), no Rio de Janeiro.

“Quando você tem uma campanha com a marca do governo federal, está em evidência uma ação política contra o racismo em espaços onde podem surgir essas manifestações”, destaca.

Carnaval sem racismo

A campanha do ministério pretende divulgar, a partir de sábado (17), material educativo alertando para práticas como injúria racial e fantasias ofensivas, além de violências simbólicas e discriminação. O material será distribuído nas principais festas de carnaval no país, incluindo os municípios que aderiram ao Plano Juventude Negra Viva.

Na visão do secretário de Combate ao Racismo do MIR, Tiago Santana, o carnaval já superou fantasias estereotipadas, mas há quem insista.

“Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”, disse.

A campanha do ministério, explica, é para enfrentar as agressões diretas, as injúrias, mas sem deixar de coibir que temas e a estética negra sirvam de “peça de chacota”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 12/01/2026 - Ministério da Igualdade Racial lança campanha ‘Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais’. Foto: Rafael Caetano/MIR

 Ministério da Igualdade Racial lança campanha ‘Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais’. Foto: Rafael Caetano/MIR

Denuncie

Com a campanha, o ministério também pretende incentivar as vítimas a registrarem as denúncias por meio do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e da Ouvidoria do Ministério da igualdade Racial, pelo e-mail: ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. Os dois órgãos podem dar suporte e ajudar a denunciar os casos em órgãos oficiais.

Se você for vítima, faça também em um boletim de ocorrência, na delegacia de polícia mais perto, recomenda o professor da Unesp. “É necessário tipificar, processar, para que as pessoas respondam pela sua ação”, frisou.



EBC

TV Brasil Internacional estreia série sobre a Cracolândia


Neste domingo (18), às 20h, no horário de Brasília, a TV Brasil Internacional, do canal público da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estreia série produzida pelo Brasil de Fato, Território em Fluxo. A produção conta com cinco episódios e aborda os principais conflitos da região conhecida como “Cracolândia”, em São Paulo, desde a resistência e alternativa à guerra contra as drogas.

Em formato de documentário, o projeto mostra os processos sociais e históricos que permeiam a sociedade. São olhares profundos e sensíveis sobre os desafios, as transformações e a pluralidade de vozes.

Além disso, a série convida o público a compreender o mundo a partir de contextos e experiências que vão desde o urbano ao rural e das questões ambientais às relações sociais.

TV Brasil Internacional 

TV Brasil Internacional é o canal de televisão da EBC voltado para os brasileiros que moram no exterior, valorizando a identidade nacional e a cultura brasileira pelo mundo. Atualmente, conta com audiência em cerca de 80 países, sendo uma janela aberta para a cultura e a informação, promovendo a conexão com o país por meio de uma programação diversificada que valoriza o Brasil e suas histórias para todos os públicos. 

As atrações da emissora são selecionadas e organizadas em cinco faixas de programação que se alternam ao longo do dia para atender aos diferentes fuso-horários no mundo. O canal público também está disponível gratuitamente no site tvbrasilinternacional.ebc.com.br, no YouTube e app TV Brasil Internacional, disponível para Android e iOS



EBC

Pesquisa inédita com genoma protege espécies de peixes da Amazônia


O pirarucu (Arapaima gigas) e o filhote (Brachyplatystoma filamentosum) são duas espécies de peixes amazônicos que, além de compartilharem o bioma de origem, possuem outras características em comum: a alta demanda pela gastronomia e a dificuldade de reprodução em ambientes de piscicultura.

Foram essas características que os elegeram as primeiras espécies a terem seus conjuntos de DNA decifrados por um estudo inédito conduzido pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

Segundo o pesquisador Sidney Santos, que liderou a equipe do Laboratório de Genética Humana e Médica do Instituto de Ciências Biológicas, o estudo foi motivado pela necessidade de conter os impactos causados pelo avanço da exploração predatória dessas espécies, em função do aumento da demanda.

“A ideia central é, se você de uma forma equilibrada e direcionada conseguir conhecimento suficiente para produzir esses peixes do jeito mais sustentável possível, você pode diminuir a demanda da natureza”, explica.


Pescadores do Acre buscam certificação internacional do pirarucu (Divulgação/WWF Brasil)

Estudo da UFPA foi motivado pela necessidade de conter impactos causados pelo avanço da exploração predatória dessas espécies, entre elas o pirarucu. – Divulgação/WWF Brasil

DNA

A forma mais completa de buscar esse conhecimento é decifrando o DNA (ácido desoxirribonucleico) fornecido por amostras biológicas de vários indivíduos das espécies. Essa molécula, composta por quatro tipos de nucleotídeos (Adenina (A), Timina (T), Citosina (C) e Guanina (G), guarda informações precisas sobre saúde, traços físicos e ancestralidade, por exemplo.

No caso do estudo com o pirarucu e o filhote, os cientistas colheram amostras de mais de 100 peixes, para que os DNAs pudessem ser lido por um sequenciador genético capaz de entender a ordem dos nucleotídeos. Cada ordem diferente traz informações sobre um ser vivo, que juntas formam o genoma daquela espécie. Um tipo de manual completo sobre o grupo.

“Isso pode valer para qualquer animal que você imagine, qualquer vegetal. O modelo é sempre o mesmo. Se você, de uma forma sustentada, consegue a informação completa sobre o genoma desses animais, você pode fazer qualquer coisa com eles, inclusive reproduzir”, diz Santos.

Segundo o pesquisador, na prática, é possível saber se aquele peixe é filho de uma matriz para produção na piscicultura, ou se ele foi retirado diretamente da natureza e comercializado para outro país.

Rastreabilidade

A proteção das espécies vai além de aliviar a retirada do meio ambiente de peixes reproduzidos naturalmente. Por meio do conhecimento do genoma das espécies, é possível também saber a origem precisa daquele animal.

Segundo o diretor do Instituto Sócio Ambiental e dos Recursos Hídricos da Universidade Federal Rural da Amazônia, Igor Hamoy, que participou do estudo da UFPA, além de todo o conhecimento fisiológico, o genoma permite a rastreabilidade genética.

“Com a história que está dentro do genoma do pirarucu, por exemplo, eu consigo descobrir se um pirarucu que está sendo vendido em Boston foi oriundo da Amazônia”, diz Hamoy.

Ele destaca ainda que toda a informação trazida pelo estudo é registrada em um banco genético público, possibilitando o avanço de novas pesquisas sobre a espécie.

“Eu consigo descobrir exatamente que espécie é aquela e não ter mais dúvidas se o nome científico ou o nome vulgar, que está sendo utilizado por uma comunidade, é realmente aquele peixe que aquela comunidade amazônica há muito tempo come, há muito tempo trabalha”, destaca.

Avanços

Foi a partir da informação obtida, que os pesquisadores conseguiram avançar sobre os principais entraves em relação a psicultura do pirarucu e do filhote: a indução do hormônio sexual, o desenvolvimento de uma nutrição adequada para ambientes artificiais e a rastreabilidade para evitar que espécies amazônicas sejam comercializadas de forma ilegal.

Segundo a secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Rita Mesquita, esses avanços da ciência são orientadores na implementação de políticas públicas de conservação no país.

“A pesquisa genética contribui para aumentar nosso conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e também contribui para a gente conseguir melhor compreender o que a gente já fez e o que ainda falta ser feito,” afirmou.

De acordo com a secretária, o planejamento até 2030, previsto na Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (Epanb) foi pensado a partir do que a ciência aponta ser necessário para reduzir a perda de biodiversidade e regenerar os biomas brasileiros.

Algumas políticas públicas dependem ainda mais dos genomas decifrados por cientistas, como é o caso da elaboração das listas de espécies exóticas invasoras e Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. Outro exemplo citado pela secretária é o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), lançado pelo governo federal em 2024.

“Em processos de refaunação, porque fauna desapareceu, ou restauração de vegetação, essa biblioteca de informação genética permite que a gente possa ter acesso ao conhecimento necessário para devolver aos lugares certos as espécies”, explica Mesquita.

Desafios


Belém (PA), 16/01/2026 - O pesquisador da UFPA, Sidney Santos. Foto: Sidney Santos/Arquivo Pessoal

Pesquisador da UFPA, Sidney Santos, liderou  estudo sobre impactos causados pelo avanço da exploração predatória. Foto: Sidney Santos/Arquivo Pessoal

Na avaliação do pesquisador Sidney Santos, a ampliação de estudos para decifrar genomas de espécies em geral é um tipo de conhecimento que tem uma tendência de avançar no país e em todo o mundo, principalmente pela diminuição do custo dos recursos necessários.

“O genoma humano, que foi o primeiro, demorou 10 anos para fazer, custou de US$ 2,5 a 3 bilhões. A partir daí, o poderio das máquinas foi aumentando. Hoje, com o MGI, que é o equipamento [sequenciador de DNA] que usamos, você consegue fazer 48 genomas humanos em 3 horas, a um custo, que eu espero que ainda diminua, de US$1,5 mil a US$ 2 mil no máximo”, diz.

Por outro lado, Hamoy destaca que para a região amazônica os desafios são maiores que em outras regiões do país. De acordo com Santos, além do equipamento da UFPA ser o único sequenciador genético do setor público da Amazônia, há ainda o chamado “custo Amazônia” causado por dificuldades logísticas e operacionais.

“O custo hoje está menor, mas não é um custo ainda acessível para qualquer pesquisador, para qualquer universidade. Então o parque tecnológico que a UFPA tem aqui, no Laboratório de Genética Humana e Médica, é um parque que consegue fazer tudo isso, informou.

“Mas o insumo dessa pesquisa, por exemplo, tem que ser financiado. Então, assim, são muitas linhas de pesquisa, que precisam de financiamento, especialmente aquelas que são pesquisas aplicadas”, acrescentou.

Para Rita Mesquita, o trabalho para assegurar que espécies não sejam perdidas é um desafio do tamanho da biodiversidade do país: a maior do mundo.

“O que o Ministério [do Meio Ambiente] faz nesse sentido é continuar trabalhando com a ciência para aprimorar nossa informação sobre áreas prioritárias, continuar buscando a proteção dos territórios para as espécies, principalmente aquelas mais ameaçadas, que essas espécies tenham a devida proteção para não desaparecer”, reforça.

E o papel da ciência é parte fundamental para gerar conhecimento que permita que a interação de humanos com espécies de qualquer bioma seja pautada por parâmetros de sustentabilidade, destaca a secretária.

“Isso vale para bicho e vale para planta. Se a gente tem formas de manejar de maneira sustentável, formas de recuperar, restaurar e devolver, a gente pode estabelecer uma relação onde as espécies possam ser manejadas a partir de princípios sustentáveis do manejo de baixo impacto e com populações asseguradas em áreas protegidas”, conclui.



EBC

Enredos das escolas de samba contam a história não oficial


Descreve a etimologia disponível na internet que no DNA linguístico do substantivo “enredo” está no verbo “enredar”. As duas palavras têm ascendência latina, derivam de ‘rete’ (rede). Como os linguistas, pescadores e peixes sabem, o enredo resulta de uma trama de fios que envolvem e capturam.

Na arte, a trama tem que prender seus espectadores, como explicam o professor de história Luiz Antonio Simas e o jornalista Fábio Fabato na segunda edição ─ revista e ampliada ─ do livro Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos (Mórula Editorial).

Nesta nova versão, o texto acrescenta a revolução dos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro a partir da segunda década deste século.

A publicação trata da genuína forma que os sambistas cariocas criaram há quase 100 anos para contar e refazer a história. Novos enredos que, depois de envolver 120 mil pessoas no Sambódromo e milhões pela televisão e nas novas mídias, vão passar nas salas de aula e nos livros didáticos.

Confira os principais trechos da entrevista os dois autores

 


Rio de Janeiro (RJ), 14/01/2026 - Escritores Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. Foto: Rafael Barbanjo/Divulgação

Escritores Luiz Antonio Simas (esq) e Fábio Fabato (dir). Foto: Rafael Barbanjo/Divulgação

Agência Brasil: Em breve, em 2028, vamos fazer 100 anos de escola de samba. De onde partiu a exigência de haver enredo nos desfiles?

Luiz Antonio Simas: Desfiles de escolas de samba, na verdade, vamos ter a partir de 1932. Curiosamente, nós tivemos concursos [das escolas de samba] antes disso. O [jornalista, escritor e pai de santo] José Espinguela [1890-1944] foi quem organizou, mas não eram concursos com desfiles em cortejo. Eram disputas entre escolas de samba que, entretanto, se limitavam às apresentações e a escolha do melhor samba.

A partir de 1932, há a ideia do cortejo. Consideramos um marco dos primeiros desfiles. Isso é curioso pelo seguinte: as escolas de samba não inventaram a ideia do enredo. Os enredos faziam parte dos cortejos de grandes sociedades e ranchos carnavalescos – sobretudo, dos ranchos de carnaval. O Ameno Resedá [fundado em 1907], que era considerado um rancho, desfilava com enredos de relevância cultural etc.

O que as escolas de samba fizeram foi redimensionar essa perspectiva dos enredos. E, mais do que isso, o que as escolas de samba fizeram de muito diferente em relação aos ranchos, foi, aos poucos, consolidar uma trilha sonora completamente distinta. Os ranchos desfilavam com as chamadas marchas rancho. E as escolas de samba foram construindo, aos poucos, o que a gente vai denominar como samba-enredo.

Fábio Fabato: A gente pode dizer que é o primeiro samba em enredo que nós temos é quando a Portela resolve fazer um carnaval com um tema especificamente. Até então, essa coisa de um tema fortíssimo, único, não existia. Em 1939, a Portela faz isso. O Paulo da Portela [1901-1947] cria um desfile que é um simulacro da própria escola de samba, mostrando que é uma escola. Temos um samba e temos um enredo [Teste ao Samba], com uma premissa de enredo.

Luiz Antonio Simas: Antes de 1939, os enredos não precisavam ter relação direta com o samba. Então, você podia apresentar um enredo visualmente sobre um tema e cantar samba sobre temas completamente distintos. Em 1939, a Portela propõe essa coesão entre enredo e samba.

Agência Brasil: Posso dizer que o enredo é o esqueleto e o samba-enredo é o músculo do desfile?

Fábio Fabato: Pode. Obviamente, a espinha dorsal de uma escola de samba vai ser sempre o ritmo, a bateria, o samba e tal.

Agora, tudo começa no enredo, né? Primeiro lança-se o enredo e aí vem o samba-enredo, depois o desenho rítmico da bateria em cima desse samba-enredo. A origem, o começo de um grande carnaval, está em num grande enredo.

Luiz Antonio Simas: O samba-enredo é um gênero completamente inusitado na história da música popular brasileira, porque primeiro ele é um gênero feito sob encomenda. Então, você elabora um samba vinculado a um enredo que foi proposto. Nesse sentido, também, o samba enredo acaba sendo o único gênero de música urbana que nós temos, que, em vez de ser lírico, é épico. Ele se coloca a serviço de contar alguma história exemplar que um enredo propõe.

Agência Brasil: Como é que se dá a escolha do enredo? Quem decide isso? É uma escolha do presidente da escola de samba?

Fábio Fabato: Muitas vezes, é. Sobretudo, se o presidente tem uma promessa de patrocínio… Mas isso varia muito, sabe? Quando você tem um carnavalesco que tem uma força muito grande na engrenagem das escolas, tipo, o Leandro Vieira, o carnavalesco da Mangueira que revolucionou o desfile em 2019, e que agora está na Imperatriz Leopoldinense. Ele tem a marra de conseguir colocar o tema dele. A marra boa, no caso. E, além de tudo, ele é o enredista dele mesmo. Ou seja, ele escreve o tema, bola as fantasias, e convence o presidente que a ideia dele é boa.

Há outros carnavalescos que não têm essa força toda. O que acontece normalmente na escola de samba é ter alguma dificuldade financeira depois do carnaval. Como ela não tem aquele capital circulante, ela não tem capital de giro, ela precisa se capitalizar. Então, elas se comprometem. ‘Olha, eu vou te dar aqui um patrocínio de R$ 2 milhões em maio para você falar do iogurte’. E as escolas de samba acabam fazendo um enredo sobre o iogurte…

Normalmente, o enredo é decidido na altura de abril e maio por um, digamos, conselhão formado pelo carnavalesco, o presidente, e agora com uma figura nova que é o enredista, um pesquisador que acompanha alguns carnavalescos.


Rio de Janeiro (RJ), 14/01/2026 - Capa do livro Pra tudo começar na quinta-feira - o enredo dos enredos, dos escritores Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. Foto: Mórula Editorial/Divulgação

Capa do livro Pra tudo começar na quinta-feira – o enredo dos enredos, dos escritores Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. Foto: Mórula Editorial/Divulgação

Luiz Antonio Simas: No passado, o carnavalesco propunha o enredo. O que a gente entende como sinopse era algo muito mais simples, diga-se de passagem. E muitas vezes o samba que a escola escolhia acabava repercutindo em transformações que a sinopse ganhava e o próprio espetáculo visual passava a ter.

Como esse processo foi se transformando, essa dinâmica ficou mais complexa e passou a contar com outros personagens. Por exemplo, a figura do pesquisador, a figura do sujeito que escreve a sinopse. Mas há carnavalescos que continuam sem abrir mão da iniciativa de escrever a sinopse. E tem outra coisa: já aconteceu muito de escolas de samba mudarem de enredo aos 43 minutos do segundo tempo. Não existe um modelão.

Agência Brasil: Quão decisivos são os enredos? Enredo ganha carnaval? Enredo perde carnaval?

Fábio Fabato: Sim, mas o jogo é jogado na avenida. O enredo pode jogar fora um desfile, como também um grande enredo deixa a comunidade feliz. Você percebe de cara que a comunidade se encanta com aquilo, que vai abraçar o enredo. Uma escolha certeira ajuda muito no processo.

Luiz Antonio Simas: O enredo é um quesito que tem transversalidade. Ele contamina todos os outros.

Um bom enredo abre possibilidades para ter um trabalho plástico, por exemplo, de melhor qualidade. Pode condicionar a criação de um samba mais consistente. É muito mais fácil compor o samba quando há um enredo bom.

Se você faz um samba mais consistente isso favorece a sua harmonia… Ter um bom enredo é meio caminho andado.

Agência Brasil: Aprendemos história com os enredos? Que história se aprende nos enredos?

Luiz Antonio Simas: Aprendemos, é evidente que aprendemos.

Aprendemos histórias que uma certa grande história oficial não contava, não contou e hoje começa a contar, né? As escolas de samba têm um papel pedagógico, de pedagogia das massas. Então, a escola de samba acabou cumprindo um papel que muitas vezes a escola institucional não cumpria.

Quando você pensa que o Salgueiro trouxe Quilombo dos Palmares, em 1960, e Zumbi dos Palmares não era um personagem falado em sala de aula. O próprio Salgueiro trouxe Xica da Silva [em 1963]. Ela não era uma personagem falada em sala de aula. A Viradouro trouxe ‘Teresa de Benguela, uma Rainha Negra no Pantanal’, ela não era uma personagem falada em sala de aula. O enredo que o Leandro Vieira propôs para Mangueira no Carnaval de 2019, [História para ninar gente grande] responde essa questão. As escolas de samba muitas vezes operaram na dimensão da contranarrativa oficial.

Fábio Fabato: O grande lustre da história tem alguns dos seus penduricalhos apagados. A escola de samba consegue iluminar esses penduricalhos. E a escola de samba ensina a partir de uma lógica de afeto, com o congraçar das artes.

Em um desfile de escola de samba, tem percussão, canto, dança, pintura, escultura. Tem a criação e o trabalho do vidraceiro, do costureiro, do carpinteiro. Há formas infinitas de arte para contar aquela história. O enredo é uma linguagem muito brasileira e muito bem feita. Uma forma que o Brasil inventou para celebrar os seus e celebrar suas histórias.



EBC