Demarcação de terras e maior participação mobilizaram protestos na COP


Enquanto as negociações não terminam, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) ficou marcada por protestos de indígenas na Zona Azul, nesta sexta-feira (21). Eles protestaram pela demarcação de terras, a favor dos guarani kaiowá e contra mineração promovida por empresas do Canadá, em diversos países do continente americano, inclusive o Brasil.

A manifestação ocorreu no momento da retomada das negociações, após o incêndio que atingiu parte dos pavilhões dos países nessa quinta-feira (21). (), também na Zona Azul.

Entoando cânticos, os indígenas percorreram o corredor central da Zona Azul, atraindo a atenção de negociadores, observadores e de quem circula pela conferência. Com cartazes, pediam a saída de empresas canadenses dos territórios indígenas e a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que prevê a privatização de empreendimentos públicos federais do setor hidroviário nos rios Madeira, Tocantins e Tapajó.

O protesto foi realizado após o término da Plenária dos Povos, organizada pela rede Climate Action Network – International, que reúne mais de 1.300 organizações não governamentais de cerca de 130 países, que promovem ações contra a mudança climática. 

Manifestações na COP30

A COP30, em Belém, recebeu inúmeras manifestações populares. Os organizadores estimam que a conferência reuniu cerca de 50 mil pessoas, com a presença de representantes de comunidades tradicionais, agricultores, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, entre outros.

Eles reivindicaram, entre outros pontos, maior participação nos espaços de decisão.

Em um deles, realizado no dia 12 de novembro, segundo dia da conferência, indígenas munduruku chegaram a entrar na Zona Azul, mas foram retirados pela segurança do evento. Eles reivindicavam o fim da privatização de empreendimentos no Rio Tapajós.

Outra crítica era contra a construção da Ferrogrão, ferrovia que ligará o Mato Grosso ao Pará para escoamento de produção agrícola, e que causará impacto no modo de vida dos indígenas e pressão sobre suas terras.

Dias após a manifestação, lideranças do povo munduruku foram recebidas pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, disse que o governo federal vai realizar uma consulta prévia aos povos sobre o projeto de hidrovia no Tapajós.

Belém também abrigou a Cúpula dos Povos, realizada em paralelo à COP30 e um dos principais espaços de mobilização, que reuniu cerca de 20 mil pessoas de 1,3 mil movimentos sociais e a sociedade civil para discutir e apresentar demandas. Na abertura da Cúpula, uma barqueata levou mais de 200 embarcações e cerca de 5 mil pessoas as águas da Baía do Guajará, por justiça climática e social.

Em um ato político, integrantes criticaram a ausência de maior participação popular na COP30 e defenderam a Palestina. Para as organizações e movimentos, países e tomadores de decisão têm se omitido ou apresentado soluções absolutamente ineficientes colocando em risco a meta de limitar o aquecimento global a  1,5°C, conforme o Acordo de Paris. 


Belém (PA), 12/11/2025 - Barqueata da Cúpula dos Povos, liderada pela

Belém (PA), 12/11/2025 – Barqueata da Cúpula dos Povos, liderada pela “Caravana da Resposta”. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Outro ato, no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), promoveu o “Funeral dos Combustíveis Fósseis”, para denunciar os impactos climáticos causados pelo uso de combustíveis derivados do petróleo, gás natural e carvão mineral.

A Boiuna, da cultura amazônica, foi usada como símbolo de abertura de caminhos para as lutas e as demandas das populações tradicionais da Amazônia.

A maior mobilização foi a Marcha Mundial pelo Clima, que ocupou as ruas de Belém, no sábado (15) com cerca de 70 mil pessoas, mostrando a expressiva diversidade cultural e social do povo amazônico. Povos indígenas de todos os países da América do Sul também integraram a marcha, unindo as vozes para pedir que seus direitos sejam respeitados e territórios tradicionais sejam demarcados.


Belém (PA), 17/11/2025 - Marcha Global dos Povos Indígenas - A Resposta Somos Nós, evento paralelo à COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Belém (PA), 17/11/2025 – Marcha Global dos Povos Indígenas – A Resposta Somos Nós, evento paralelo à COP30. Foto:  Bruno Peres/Agência Brasil

No mesmo dia, o Tribunal Autônomo e Permanente dos Povos contra o Ecogenocídio, órgão simbólico montado durante a COP30 por movimentos sociais, divulgou uma sentença que condena Estados e grandes empresas por violações sistemáticas contra povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e a natureza.

Ao final da Cúpula dos Povos, a Declaração Final classificou como “falsas soluções” as medidas apresentadas para o enfrentamento da emergência climática. A carta aponta o modo de produção capitalista como causa principal da crise climática crescente e ressalta que as comunidades periféricas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos e o racismo ambiental.

O cacique Raoni Metuktire encorajou os participantes a continuar a luta. Em carta aos participantes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a Cúpula dos Povos foi fundamental para tornar viável COP30.

Os indígenas também tiveram espaço na AldeiaCOP, que abrigou cerca de três mil pessoas e recebeu apresentações, feira de bioeconomia, debates e uma casa espiritual para a prática de rituais de cura e medicina ancestral indígena. Os povos indígenas fizeram uma marcha pelas ruas da capital paraense, em que cobraram punição pelo assassinato de Vicente Fernandes Vilhalva Kaiowá, de 36 anos, atingido por um tiro na cabeça durante um ataque armado no município de Iguatemi, Mato Grosso do Sul. 



EBC

BRB diz que recuperou R$ 10 bilhões das carteiras com Master


Após a repercussão das investigações ligadas às supostas fraudes envolvendo o Banco Master, o Banco de Brasília (BRB) afirmou, em nota, nesta sexta-feira (21), que a instituição permanece com solidez.

Nas investigações da Polícia Federal, o BRB aparece com um das principais instituições que teriam comprado créditos falsos do Master. 

“As carteiras atuais seguem padrão adequado, e o Banco permanece sólido e colaborando com as autoridades”, garantiu a instituição.

Em relação aos negócios com o Banco Master, o BRB ponderou que todo o processo de substituição de carteiras e adição de garantias, que é previsto em contrato, foi reportado e acompanhado pelo Banco Central.

A fraude

O BRB adquiriu, segundo as investigações, um total de R$ 12,7 bilhões em carteiras de crédito inexistentes do Master. A Operação Compliance Zero, deflagrada nesta semana pela Polícia Federal (PF), apontou que a fraude consistia em simular empréstimos em meio a negociações de carteiras de crédito com outros bancos. Entre eles, o BRB.

Na nota, o banco afirmou que dos R$ 12,76 bilhões negociados, mais de R$ 10 bilhões já foram “liquidados ou substituídos”. “E o restante não constitui exposição direta ao Banco Master”. O Banco de Brasília acrescentou que atua como credor nessa liquidação extrajudicial e que passou a reforçar controles internos.  

Para reafirmar a ideia de solidez, o BRB divulgou que conta com mais de R$ 80 bilhões em ativos, mais de R$ 60 bilhões em carteira de crédito e registrou lucro líquido de R$ 518 milhões no 1º semestre”. A instituição teria contabilizado margem financeira superior a R$ 2,3 bilhões.

A instituição acrescentou que atende em 97% do território nacional e conta com 988 pontos físicos e liderança no crédito imobiliário no Distrito Federal.



EBC

Entidades da indústria e do agro celebram fim da taxa de 40% dos EUA


A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar as tarifas de 40% sobre diversos produtos brasileiros foi amplamente celebrada por entidades e associações ligadas à indústria e agricultura.

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) publicou nota em que “avalia como muito positiva” a revogação da tarifa extra de 40% para uma lista de itens majoritariamente agrícolas, como café, carne bovina, banana, tomate, açaí, castanha de caju e chá. A isenção tem efeito retroativo a 13 de novembro e permitirá o reembolso de produtos já exportados.

Para o órgão, a medida é um avanço importante para a normalização do comércio bilateral “com efeitos imediatos para a competitividade das empresas brasileiras envolvidas e sinaliza um resultado concreto do diálogo em alto nível entre os dois países”.

No entanto, para a Amcham, é preciso intensificar o diálogo entre Brasil e EUA para eliminar as sobretaxas de produtos que continuam sendo impactados.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também se manifestou.

“A decisão do governo americano de remover a tarifa de 40% a 249 produtos agrícolas brasileiros é avanço concreto na renovação da agenda bilateral e condiz com papel do Brasil como grande parceiro comercial dos Estados Unidos”, declarou Ricardo Alban, presidente da entidade, em comunicado.

Alban disse ainda que “vemos com grande otimismo a ampliação das exceções e acreditamos que a medida restaura parte do papel que o Brasil sempre teve como um dos grandes fornecedores do mercado americano”.

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) considerou que a medida alivia “setores que vinham enfrentando perda de competitividade no mercado norte-americano”.

A FIEMG lembra que sempre defendeu a negociação constante e técnica entre os dois países “como instrumento central para a retomada das condições adequadas de comércio”.

Tarifaço ainda traz impactos

O presidente em exercício e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou nesta sexta-feira (21) que 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos permanecem sujeitas às sobretaxas impostas pelo governo norte-americano. 

Segundo Alckmin, a nova decisão representa o maior avanço até agora nas negociações bilaterais. 



EBC

Governo reduz para R$ 7,7 bi congelamento de despesas no Orçamento


A equipe econômica reduziu de R$ 12,1 bilhões para R$ 7,7 bilhões o volume de recursos congelados no Orçamento de 2025.

Os dados constam do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do 5º bimestre, divulgado nesta sexta-feira (21) pelo Ministério do Planejamento e Orçamento. Do total, R$ 4,4 bilhões estão bloqueados e R$ 3,3 bilhões foram contingenciados.

A queda no bloqueio decorre, principalmente, do cancelamento de R$ 3,8 bilhões em despesas discricionárias (não obrigatórias) para cobrir gastos obrigatórios.

Já o contingenciamento passou de zero para R$ 3,3 bilhões por causa da piora na projeção para o resultado fiscal deste ano.

O detalhamento dos valores por ministério será apresentado no Decreto de Programação Orçamentária e Financeira, previsto para 30 de novembro.

Bloqueio e contingenciamento

O bloqueio é adotado quando os gastos previstos superam o limite imposto pelo arcabouço fiscal. Já o contingenciamento é aplicado quando há frustração de receitas e risco de descumprimento da meta fiscal.

A meta de 2025 é déficit zero, com tolerância para um resultado negativo de até R$ 31 bilhões.

Segundo o Ministério do Planejamento, a redução do bloqueio também reflete queda de R$ 4 bilhões na estimativa de despesas obrigatórias, influenciada por recuos em benefícios previdenciários e subsídios.

O contingenciamento tornou-se necessário porque o déficit primário projetado (R$ 34,3 bilhões) superou o limite permitido pela meta (R$ 31 bilhões). O aumento decorre, principalmente, do déficit das estatais e da revisão para baixo da receita líquida.

O déficit primário representa a diferença entre as despesas e as receitas, desconsiderando os juros da dívida pública.

Ao considerar que, desde setembro, o governo havia cancelado R$ 3,8 bilhões em despesas discricionárias para cobrir o crescimento de gastos obrigatórios, o volume total de recursos congelados (bloqueados e contingenciados) caiu de R$ 8,3 bilhões para R$ 7,7 bilhões, alívio de R$ 644 milhões.

O relatório diminuiu em R$ 501 milhões a contenção no Poder Executivo, de R$ 5,514 bilhões para R$ 5,013 bilhões. O total a parcela de emendas parlamentares congeladas passou de R$ 2,794 bilhões para R$ 2,645 bilhões, liberação de R$ 149 milhões.

Projeções de receitas e despesas

O relatório atualizou as estimativas para receitas e gastos ao longo de 2025.

>> Veja os principais números:

Receitas primárias da União

  • Projeção anterior: R$ 2,924 trilhões
  • Projeção atual: R$ 2,922 trilhões

Despesas primárias totais

  • Projeção anterior: R$ 2,417 trilhões
  • Projeção atual: R$ 2,418 trilhões

Gastos obrigatórios

  • Projeção anterior: R$ 2,207 trilhões
  • Projeção atual: R$ 2,204 trilhões

Despesas discricionárias (não obrigatórias)

  • Projeção anterior: R$ 219,056 bilhões
  • Projeção atual: R$ 215,425 bilhões

Projeções específicas de despesas

  • Benefícios previdenciários: de R$ 1,029 trilhão para R$ 1,028 trilhão (-R$ 263,7 milhões)
  • Pessoal e encargos sociais: de R$ 408,976 bilhões para R$ 408,592 bilhões (-R$ 384 milhões)
  • Precatórios e sentenças judiciais: de R$ 42,824 bilhões para R$ 43,356 bilhões (+R$ 532,4 milhões)
  • Subvenções econômicas: de R$ 24,769 bilhões para R$ 21,677 bilhões (-R$ 3,092 bilhões)

Arrecadação

  • Dividendos de estatais: de R$ 48,808 bilhões para R$ 52,422 bilhões (+R$ 3,614 bilhões)
  • Concessões: de R$ 7,743 bilhões para R$ 7,831 bilhões (+R$ 88,2 milhões)
  • Royalties: de R$ 145,903 bilhões para R$ 144,081 bilhões (-R$ 1,822 bilhão)

Meta fiscal e decisões recentes

A meta fiscal de 2025 permite déficit de até R$ 31 bilhões. Segundo o governo, a projeção menor do resultado está ligada ao déficit de estatais e à queda de R$ 1 bilhão na receita líquida estimada.

O governo também destaca impactos positivos da aprovação no Congresso de medidas ligadas à compensação tributária indevida, ao Atestmed (sistema de atestado médico digital do Instituto Nacional do Seguro Social) e ao seguro-defeso, que devem gerar alívio fiscal de cerca de R$ 15 bilhões neste ano.

Além disso, o Tribunal de Contas da União (TCU) autorizou o governo a contingenciar recursos para perseguir o piso da meta – déficit primário de R$ 31 bilhões –em 2025, o que amplia a flexibilidade na execução orçamentária. No entanto, a decisão do ministro Benjamin Zymler ainda será julgada pelo plenário do órgão.

O detalhamento das áreas que terão liberação parcial dos recursos bloqueados será divulgado até o fim de novembro.



EBC

A poucas horas do fim da COP30, negociações prosseguem em Belém


As negociações em torno do documento final da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) ainda não se encerraram, mesmo faltando poucas horas para o término do evento, às 23h50 desta sexta-feira (21). Caso os países não cheguem a consenso até este horário, as negociações poderão se estender durante a madrugada ou retornar neste sábado (22).

No início da manhã, foram divulgados os rascunhos dos textos que estão em discussão, o chamado Pacote de Belém. Representantes da sociedade civil criticaram a falta de ambição das nações para buscar as metas climáticas previstas no Acordo de Paris, que procura conter o aumento da temperatura do planeta em até 1,5ºC, como limite para que o planeta não entre em um ciclo grave de catástrofes ambientais.

Um dos principais pontos de frustração é a ausência do mapa do caminho para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, como petróleo e carvão mineral, os principais responsáveis pelas emissões dos gases que causam o aquecimento global. O governo brasileiro, e especialmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, insistiu muito na aprovação de um texto que abordasse alguma proposta de cronograma de implementação dessa transição energética, o que acabou não se concretizando.

Para o Observatório do Clima, rede que articula centenas de entidades da sociedade civil, a proposta de texto neste tópico acabou contemplando mais o interesse dos países produtores de petróleo.

“Não há menção a combustíveis fósseis em nenhum dos textos, o que torna qualquer resposta aqui insuficiente. Na parte sobre financiamento, [o rascunho] cria um programa de dois anos sobre financiamento público. Mas como faz uma conexão com o artigo 9º [do Acordo de Paris] como um todo, a gente tem que esperar para ver a reação dos países árabes para ver iss vai ser suficiente”, apontou Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório.

Ao longo de todo o dia, grupos negociadores, que são articulações de países que costumam negociar em conjunto, como Grupo Africano, União Europeia, países árabes, o bloco China+77, entre outros, passaram o dia em tratativas e disputas sobre os rumos dos documentos.

Um grupo de 29 países, entre eles Colômbia, Alemanha, França, Reino Unido e nações insulares como Ilhas Marshall e Vanuatu, estas últimas fortemente ameaçadas pela subida dos oceanos, reagiu pedindo revisão imediata do texto em análise.

“Não podemos apoiar um resultado que não inclua o roteiro de implementação de uma transição justa, ordenada e equitativa”, afirmou o grupo que propõe a realização, no ano que vem, de uma conferência internacional para tratar justamente sobre a eliminação dos combustíveis fósseis.

“A gente não pode sair daqui com esse gosto amargo na boca”, afirmou Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil.

“Tem um grupo de países que sempre se coloca contra, a Arábia Saudita, por exemplo, a Índia, e outros que estão reclamando que não vieram para cá com esse mandato de discutir combustíveis fósseis. Ontem, a gente teve um pequeno incêndio aqui que só não virou uma grande tragédia porque ele foi lidado com urgência, os bombeiros e os profissionais trataram o fogo com a urgência que eles demandam de nós e a gente está aqui hoje trabalhando”, acrescentou.

Renomados cientistas também publicaram uma carta em que criticam a ausência de menções a combustíveis fósseis nos documentos da COP30 e alertam para um cenário em que a temperatura média global poderá escalar acima de 2ºC, o que seria uma ameaça existencial à vida humana no planeta.  

Em meio a divergências, tanto o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, quanto o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, se manifestaram ao longo do dia pedindo por consenso e instando os países a alcançarem resultados concretos.

Avanços conquistados

No campo da adaptação, que é o conceito que se relaciona com o conjunto de ações climáticas para tornar as comunidades mais resilientes aos eventos extremos, a COP30 conseguiu gerar alguns avanços.

Proposta da presidência brasileira apresentou uma lista anexa de 59 indicadores de adaptação, menos do que os 100 inicialmente previstos. Trata-se do chamado GGA, da sigla em inglês. Esses indicadores definem meios de implementação que falam sobre financiamento público internacional de países desenvolvidos para países em desenvolvimento.

“Temos também o estabelecimento de um novo processo, que é o processo de Belém até Addis, na Etiópia, que tem a função de fazer o alinhamento das políticas de adaptação e trazer salvaguardas para a implementação dos indicadores, que é uma demanda que vem dos países africanos. E ainda temos o Baku Adaptation Roadmap no texto, por outro lado, também cumprindo essa função de coordenação entre as agendas de adaptação. Por outro lado, ainda não temos o texto da nova meta de financiamento nessa proposta da presidência. Ele foi movido para a decisão do mutirão, com uma linguagem ainda fraca sobre triplicar financiamento para adaptação, sem dizer claramente de onde vem esse financiamento, então precisamos ver como os países reagirão a essa proposta”, destacou Daniel Porcel, especialista do Instituto Talanoa.

Já a especialista em política climática da The Nature Conservancy (TNC), Fernanda Bortolotto, destaca o plano de trabalho de mitigação que “teve o reconhecimento dos direitos indígenas e povos tradicionais, pelos territórios, como uma política de longo prazo para ajudar no combate às mudanças climáticas”.

No tema relacionado ao Programa de Trabalho sobre Transição Justa, houve um avanço importante, na avaliação das entidades que acompanham o assunto, que é a previsão de um instrumento multilateral, no âmbito do Secretariado da ONU sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), que impulsione ações sobre a chamada transição justa.

“Tem uma opção no texto, que ainda precisa ser adotado, decidindo desenvolver um mecanismo, no próximo ano, cujas funções vão ser delineadas na sessão dos órgãos subsidiários em Bonn [Alemanha], unindo também com uma recomendação para o novo mandato, novo ciclo do Programa de Trabalho para Transição Justa, a ser adotado na COP31”, pontuou a diretora executiva do instituto LACLIMA, Caroline Rocha.



EBC

Brasil será uma das sedes da edição feminina da Fifa Series


A Fifa (Federação Internacional de Futebol) anunciou nesta sexta-feira (21) que o Brasil será uma das sedes da edição feminina da Fifa Series, competição que tem como objetivo oferecer oportunidades de crescimento para seleções nacionais que têm poucas oportunidades de enfrentar adversários diferentes daqueles que tradicionalmente medem forças.

Em março de 2024 foi realizada uma versão piloto do torneio, apenas com seleções masculinas. Agora, durante as Datas Fifas de março e de abril de 2026, tanto times masculinos como femininos terão a oportunidade de participar da iniciativa.

“A Fifa Series feminina estreará com eventos no Brasil, na Costa do Marfim e na Tailândia”, informou a entidade máxima do futebol mundial em comunicado à imprensa.

“A Fifa Series visa desbloquear o potencial de desenvolvimento de jogadores, treinadores e torcedores, promovendo a universalidade e a diversidade do futebol por meio de partidas significativas. A edição 2026 ampliará ainda mais esse impacto, tanto para o futebol masculino quanto para o feminino”, declarou o presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Já a edição masculina da competição terá como sedes Austrália, Azerbaijão, Indonésia, Cazaquistão, Maurício, Porto Rico, Ruanda e Uzbequistão.



EBC

Especialista alerta para urgência do saneamento na crise climática


Cerca de 3,4 bilhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso a saneamento básico, segundo relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU). Além dos impactos no meio ambiente e na saúde humana, o problema agrava a emergência climática.

Em entrevista à Agência Brasil, o consultor de Água e Clima na Sanitation and Water for All (SWA), Jose Gesti, explica que enchentes, secas prolongadas, insegurança alimentar e deslocamentos forçados são sintomas da intensificação da crise hídrica e de saneamento.

Segundo ele, sem serviços resilientes de água e saneamento, os países não conseguem se adaptar à emergência climática. Cada evento ganha dimensões ainda mais extremas onde a infraestrutura urbana é falha.


Belém - 21/11/2025 - Consultor de Água e Clima na Sanitation and Water for All (SWA), Jose Gesti. Foto:  Divulgação SWA

Consultor de Água e Clima na Sanitation and Water for All (SWA), Jose Gesti – Foto: Divulgação/SWA

Gesti participou de eventos promovidos pela SWA na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém. A SWA é uma associação internacional ligada ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que reúne governos e sociedade civil.

A situação do saneamento básico em Belém é um exemplo de conexão entre a situação local e global do problema. A sede da COP30 está entre os dez piores municípios do país no ranking de saneamento produzido pelo Instituto Trata Brasil. Em 2025, apenas 27,51% da cidade tinha atendimento de esgoto.

Nesse sentido, o especialista defende que políticas e financiamento públicos e privados priorizem comunidades historicamente excluídas, com mais transparência e participação social.

Agência Brasil: Quais os principais desafios hoje para avançar com a agenda de saneamento básico?

Jose Gesti: Um dos desafios mais urgentes é a distância entre compromissos políticos e progresso real. Com apenas cinco anos restantes para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ainda estamos longe do acesso universal.

Um relatório recente da ONU mostra que 2,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura, e 3,4 bilhões carecem de saneamento seguro, incluindo 354 milhões de pessoas que ainda praticam a defecação a céu aberto.

Esses não são números abstratos – representam crianças bebendo água de rios contaminados, famílias presas em ciclos de doenças evitáveis e comunidades incapazes de romper com a pobreza.

Agência Brasil: Como podemos conectar o tema com o da emergência climática?

Gesti: Enfrentamos impactos climáticos que estão se intensificando rapidamente. Enchentes, secas prolongadas, insegurança alimentar e deslocamentos forçados são todos sintomas do agravamento da insegurança hídrica.

Sem serviços resilientes de água e saneamento, os países não conseguem se adaptar de forma eficaz à emergência climática. Cada evento climático extremo torna-se mais devastador onde a infraestrutura falha.

É por isso que, na Reunião de Ministros de Setor de 2025 em Madri, defendemos o fim de abordagens fragmentadas e isoladas. Integrar água, saneamento, saúde, meio ambiente e finanças é essencial para fortalecer a resiliência e melhorar a eficiência.

Evidências mostram que cada dólar investido em água e saneamento gera múltiplos retornos, melhorando a saúde pública, a produtividade econômica e a estabilidade climática. Água e saneamento, portanto, não são temas periféricos – são centrais para a ação climática.

 


Belém (PA), 21/11/2025 - Esgoto a céu aberto na cidade de Belém. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Esgoto a céu aberto na cidade de Belém – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Agência Brasil: Considerando que Belém enfrenta desafios históricos nessa área, que você pode ter observado durante sua estadia, em que medida a COP30 representa uma oportunidade para destacar esses temas e conectar a realidade local com os debates globais?

Jose Gesti: O abastecimento de água e o saneamento básico são fundamentais para a dignidade humana, oportunidades econômicas e resiliência climática. A COP30 oferece uma plataforma-chave para elevar essa agenda ao mais alto nível político, especialmente à medida que a presidência tem enfatizado adaptação, equidade e entrega real de resultados.

Os debates mostram que a comunidade global reconhece cada vez mais que, sem sistemas fortes de água e saneamento, os países não estão preparados para as pressões climáticas já em curso. Colocar água e saneamento no centro das negociações climáticas cria espaço para transformar desafios locais em prioridades globais, atrair financiamento, mobilizar iniciativas políticas e acelerar implementações práticas.

A COP30 também é uma oportunidade para dar visibilidade às perspectivas das comunidades e demonstrar soluções integradas – como projetos urbanos permeáveis, redes de esgoto resilientes e proteção de bacias hidrográficas – que reduzem impactos de desastres e fortalecem a resiliência social. Isso permite que vozes locais influenciem decisões globais, deslocando o debate de promessas para resultados mensuráveis.

Agência Brasil: Você concorda que existe uma relação direta entre o acesso desigual à água e ao saneamento e o que especialistas denominam racismo ambiental?

Jose Gesti: Ao redor do mundo, as comunidades mais afetadas pela falta de serviços adequados de água e saneamento são, de forma desproporcional, populações marginalizadas. Elas têm maior probabilidade de viver em áreas com infraestrutura limitada, maior exposição à contaminação e enchentes recorrentes, e menos recursos para recuperação. Esses padrões são resultado de décadas de investimento público desigual – não coincidência.

Quando o acesso à água potável depende de raça, geografia ou renda, não estamos discutindo apenas lacunas de infraestrutura – estamos falando de injustiça estrutural e violações de direitos humanos básicos. Essa é a expressão prática do racismo ambiental.

Para superá-lo, políticas e mecanismos de financiamento precisam priorizar explicitamente comunidades historicamente deixadas de lado, garantir transparência e responsabilização, e fortalecer o protagonismo da sociedade civil na tomada de decisões.

A equidade deve ser a base da prestação de serviços públicos – porque saneamento resiliente e inclusivo é essencial para sociedades saudáveis, seguras e prósperas.



EBC

PF fecha duas empresas de segurança clandestinas na COP30


A Polícia Federal informou nesta sexta-feira (21) que fechou duas empresas clandestinas de vigilância patrimonial e segurança que atuavam em áreas oficiais e espaços temáticos ligados à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

Segundo a PF, fiscalizações realizadas nas últimas semanas identificaram casos de profissionais de apoio desempenhando funções exclusivas de vigilantes, prática irregular conforme a legislação vigente.

“As equipes constatam desde a ausência de comunicações obrigatórias das empresas à Polícia Federal — que devem informar, com antecedência mínima de 24 horas, a escala e os dados dos vigilantes atuantes — até a identificação de empresas clandestinas realizando vigilância patrimonial e segurança de evento sem autorização”, disse a PF, em nota.

A legislação determina que a prestação de serviços de segurança privada no Brasil depende de autorização prévia da PF, à qual compete exclusivamente o controle e a fiscalização do setor.

Ao todo, mais de 700 profissionais de segurança privada foram fiscalizados durante o período da COP30. As apurações foram realizadas nas áreas da Zona Azul, Zona Verde, Agrizone, Enzone, Freezone, Polo Museu Emílio Goeldi/Chico Mendes, Casa BNDES, Complexo Mercedários/UFPA, Estação das Docas, Aldeia da COP, Espaço Cúpula dos Povos/UFPA, entre outros locais.

A PF também fiscalizou um hotel-barco ancorado no Porto de Belém, utilizado para hospedagem de participantes da conferência.

Durante as fiscalizações, foram lavrados quatro autos de infração por descumprimento das normas do Estatuto da Segurança Privada, como definição do efetivo mínimo de vigilantes em grande eventos, análise de risco e controle de acesso ao público. 

Com as empresas fechadas, os policiais encontraram detectores de metais e rádios de comunicação utilizados indevidamente por essas empresas e expediram orientações e notificações de adequação às normas do novo estatuto de segurança privada.

“O acompanhamento realizado durante a COP30 assegurou o cumprimento das normas, elevou o padrão de segurança nos locais fiscalizados e contribuiu para a proteção de participantes, autoridades e visitantes”, disse a PF.

Incêndio

Ontem, após o incêndio que atingiu os pavilhões dos países na Zona Azul. A PF realizou uma vistoria, junto com o Corpo de Bombeiros, antes de liberar o espaço para a retomada das atividades.

A Zona Azul foi devolvida à UNFCCC (órgão da ONU que trata de mudanças climáticas) e voltou a funcionar às 20h40.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que, pelo menos, 27 pessoas receberam atendimento por inalação de fumaça ou crise de ansiedade. Desse total, 21 já foram liberadas. Os demais estão recebendo assistência adequada nos serviços de saúde de Belém.

Não há registro de casos de pessoas feridas com queimaduras. 



EBC

Rio recebe Caravana África Diversa na temporada cultural Brasil-França


Artistas, pesquisadores e grupos de tradições culturais do Brasil e da Frannça estarão reunidos, entre este sábado (22) e a próxima quinta-feira (27), em diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro, para debates e apresentações de espetáculos com o foco em artes cênicas e saberes ancestrais.

A programação faz parte da Caravana África Diversa e chega à capital fluminense dentro das comemorações dos 200 anos de amizade franco-brasileira e da primeira Temporada Brasileira na França, realizada há 20 anos.

A edição de 2025 da Caravana será apresentada no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), nos teatros Cacilda Becker e Dulcina, e na BiblioMaison, no centro da capital. Também está prevista programação no Museu de Arte do Rio, na região portuária.

O evento começou em Nantes, na França, entre os dias 6 e 9 de novembro, com atividades que ocorreram na La Compagnie du Café-Thêatre e na Maison de l’Afrique.

“A gente tenta estar em museus, espaços oficiais, mas também na rua e em espaços culturais, que normalmente não abraçariam essas programações. A gente tenta também abraçar a cidade inteira, que recebeu as pessoas escravizadas”, afirmou a idealizadora e curadora da Caravana África Diversa, Daniele Ramalho, de Nantes, em entrevista à Agência Brasil por telefone.

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No entendimento de Daniele, a cidade do Rio de Janeiro conta essa herança africana, e a sua participação na construção da sociedade.

“Fazer uma oficina sobre folhas [de plantas] em um quilombo, que tem uma plantação, é bem diferente do que em uma sala de aula. O percurso também transforma o olhar da gente”, pontuou, comentando a diversidade da programação.

 


BRASÍLIA - 19/11/2025 - Daniele Ramalho e o curador convidado, o griô Hassane Kouyaté. Foto:   Flávia Correia  

Daniele Ramalho e o curador convidado, o griô Hassane Kouyaté. Foto:Flávia Correia/Divulgação

Ancestralidade

A guardiã na tradicional festa Reinado de Nossa Senhora do Rosário, Capitã Pedrina, é uma das convidadas a participar da programação. Também está prevista a presença do pesquisador mineiro Benjamin Abras, atualmente radicado na Europa e que é uma referência na arte da performance. A Caravana tem como curador convidado o ator, diretor e griô Hassane Kouyaté, de Burkina Faso.

Daniele Ramalho lembrou que, no Brasil, na África, há também as griotes, que são as mulheres com títulos equivalentes aos griôs, chamadas de mestras no Brasil, como é o caso da Capitã Pedrina.

“Tenho reverenciado muito essas mulheres. Nesta edição, especialmente, elas estão tendo destaque. O matriarcado é muito importante”, pontuou.

Essa é a segunda vez que a doutora por notório saber em comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ativista em questões étnico-raciais Capitã Pedrina participa de atividades relacionadas à agenda franco-brasileira. A primeira foi em 2005, quando viajou para o país europeu e se apresentou na programação do ano do Brasil na França.

Para a mestra, essas são sempre ações afirmativas, que ajudam a despertar nas pessoas “um sentir, um novo pensar, um novo olhar” sobre os modos de vida particulares dessas sociedades.

“Poder mostrar o quão isso é importante na sobrevivência e no dia a dia desse mundo, que se pretende globalizado, mas, na maioria das vezes, não consegue estender o apoio necessário aos jovens e crianças e até mesmo às pessoas mais idosas, buscando conscientizar sobre nossos valores”, disse à Agência Brasil.

“Quem não sabe de onde vem, não sabe para onde ir. Tem que mostrar as raízes, o valor, para a pessoa se perceber neste mundo e se encontrar, para ter equilíbrio mental e emocional para seguir a busca dos seus objetivos”, complementou.

A Rainha Konga do grupo de congado Massambique da Nossa Senhora das Mercês, Ana Luzia de Moraes, participou da caravana em Nantes e também foi convidada para participar no Rio, mas não poderá estar presente.

Também exaltada pela curadoria, Ana Luzia conseguiu obter, em 2025, o registro dos Saberes do Rosário: Reinados, Congados e Congadas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, após 17 anos de luta. Para a Rainha Konga, estar no evento é motivo de satisfação.

“A gente sente que é a continuidade de um trabalho em que a gente pode se conectar com outras realidades”, informou à reportagem.

Oferendas

O artista contemporâneo Benjamin Abras traz para a Caravana três apresentações, que chamou de oferendas. O Masimba, um solo de dança teatro performativo criado por meio da linguagem de dança teatro afro butô; uma oficina; e uma performance de afro butô que será realizada no Museu de Arte do Rio (MAR).

O afro butô é uma linguagem experimental usada em performances, e Benjamin é um dos cinco pesquisadores no mundo que a estudam tanto como pesquisa como experimentação performativa. 

Abras ressaltou que o Brasil é um país de dimensões continentais, onde as tradições ainda não se encontraram e não se conhecem. Para ele, cada tradição afro-brasileira é uma biblioteca imensa de experiências de resiliência e de ressignificação de identidade e de empoderamento da humanidade da população negra.

Nesse sentido, ele acredita que a Caravana África Diversa vai permitir a possibilidade de encontros entre pessoas dessas tradições, como os  griôs Hassane Kouyaté, de Burkina Faso, e Boniface Ofogo, de Camarões; e as mestras Capitã Pedrina, do Reinado de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, e as irmãs Menezes, caixeiras do divino do Maranhão”, destacou.

O artista acrescentou que essa troca de saberes é um diálogo de empoderamentos mútuos, em que as pessoas afrodiaspóricas percebem que não são minoria, e que, na realidade, a diáspora continua em expansão.

“O África Diversa é um aquilombamento tectônico trazendo essa experiência para as comunidades de tradição e também para os artistas contemporâneos afrodiaspóricos e africanos”, completou.

Início

A curadora Daniele Ramalho trabalha com esculturas populares brasileiras, cultura indígena e referências afro-brasileiras desde os anos 2000. Nesse caminho, conforme contou, teve a sorte de encontrar alguns grupos e mestres que formaram o seu olhar sobre a vida, como Sotigui Kouyaté, um griô de Burkina Faso, durante uma oficina na qual ele falava da oralidade e da África. A experiência foi fundamental para ela, que, naquela época, começava a contar histórias nas quais a oralidade, o imaterial e o sagrado têm papel relevante.

“Tudo está interligado, como o canto, a dança, a história. Culturalmente, são sociedades muito ricas”, disse, acrescentando que, após o encontro com o griô, foi a Burkina Faso e ao Benin e teve a ideia de criar o Festival África Diversa, o primeiro nome da atual Caravana.

A programação Caravana África Diversa em 2025, tem apoio do Ministério da Cultura e da Petrobras e está incluída na programação do Ano do Brasil na França e Ano da França no Brasil, celebrando os encontros culturais entre Brasil, França e África. Todas as atividades desta edição serão publicadas em uma revista, especialmente editada e distribuída no fim da programação da Caravana, com patrocínio da Petrobras por meio da Lei de Incentivo à Cultura.



EBC

Diplomatas indígenas relatam experiência em negociações da COP30


O termo kuntari katu, original das línguas indígenas nheengatu e tupi, significa “aquele que fala bem”. Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, que registrou a maior participação de povos originários e comunidades tradicionais da história desses eventos, jovens indígenas não apenas ocuparam as mobilizações de rua e os eventos de debate espalhados pela cidade, mas também participam diretamente das complexas negociações diplomáticas internacionais ainda em curso.

Esse processo foi possível graças a um programa de formação desenvolvido numa parceria entre os ministérios dos Povos Indígenas (MPI), das Relações Exteriores (MRE) e o Instituto Rio Branco, este último responsável pela formação de diplomatas brasileiros. Batizado justamente de Kuntari Katu, o curso durou mais de um ano e preparou 30 jovens indígenas, de todas as regiões do país, com uma sólida formação para atuar no processo de negociação da COP30, que termina nesta sexta-feira (21). A reportagem da Agência Brasil conversou com três desses diplomatas indígenas, nos corredores da Zona Azul, a área oficial de negociações.


Belém (PA), 19/11/2025 - Wasady Xakriabá, articuladora da Articulação de Juventude Xakriabá (AJUX), jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Wasady Xakriabá, de Minas Gerais, diz que tudo que está sendo discutido na conferência impacta direta e indiretamente os povos indígenas – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Tudo o que está sendo discutido na COP nos impacta direta e indiretamente. Quando vai para a adaptação nos afeta, quando se trata da mitigação nos afeta, o financiamento nos afeta, porque apenas 1% desses recursos chega em nossos territórios, a gente se sente desassistido nesses espaços, por isso estar presente na negociação é importante, falando da nossa realidade. Nós somos nossos próprios porta-vozes, ninguém está falando pela gente”, afirma Wasady Xakriabá, de 28 anos, do norte de Minas Gerais.

Em Belém, ela vem acompanhando a Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, mecanismo oficial do Secretariado do Clima das Nações Unidas (UNFCCC, na sigla em inglês) para debater as questões desses grupos nas negociações climáticas.

O curso Kuntari Katu começou a ser desenvolvido em agosto de 2024 e foi estruturado para treinar os participantes com ferramentas essenciais para atuar nos fóruns internacionais. Os módulos presenciais abordam desde as complexidades do financiamento climático até os mecanismos de mercado de carbono, passando por temas como gênero, mitigação e a integração entre as agendas de biodiversidade e clima.

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As aulas foram ministradas por diplomatas experientes e especialistas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), garantindo que os alunos compreendessem tanto a teoria quanto a prática das negociações internacionais.


Belém (PA), 19/11/2025 - Eliel Camlem, indígena Xokleng, de Santa Catarina.  jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Indígena do povo Xokleng Laklãnõ de Santa Catarina, Eliel Camlem acompanhou as discussões sobre as metas de adaptação climática na COP30 – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Estudante de relações internacionais, Eliel Camlem, de 24 anos, é indígena do povo Xokleng Laklãnõ, de Santa Catarina. Na COP30, ele acompanhou as discussões sobre as metas de adaptação climática, que avançou na definição de 59 indicadores. “Muita coisa sobre esses espaços eu aprendi na graduação, mas teoria e prática são coisas diferentes. O que eu posso destacar sobre estar e aprender nesses espaços, e que muitas vezes não dos damos conta, é a força que os indígenas possuem, mesmo sendo poucos acompanhando a negociação”, aponta.

Entre os principais desafios enfrentados na mesa de negociação pelos jovens do Kuntari Katu está a disputa por conceitos que vão aparecer nos documentos finais. “Uma coisa que a gente sempre diz é que a UNFCCC tem um dicionário próprio. Então, quando alguém tenta introduzir uma nova palavra para esse dicionário, acaba gerando um grande entrave nas negociações e acaba parando tudo”, relata Jean Truká, de 24 anos, do povo Truká, de Pernambuco. Também inserido na Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, ele revela que houve embates com outros países para inserir o conceito de demarcação territorial.

“Quando a gente pauta demarcação, dentro da mesa de negociação, os outros países não aceitam porque não é um conceito entendido da mesma forma no resto do mundo”, exemplifica Jean, formado em gestão ambiental.


Belém (PA), 19/11/2025 - Jean Anjos, indígena Truka, jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Jean Truká, de Pernambuco, cita o idioma como um dos obstáculos para a participação indígena nos espaços de negociação da COP – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Até o conceito de povos indígenas em outros países, muitos não se identificam dessa forma, principalmente o pessoal da China, por exemplo. Eles não se identificam como povos indígenas e, às vezes, nem como comunidades tradicionais”, acrescenta Eliel.

O obstáculo do idioma também é um desafio para a participação dos indígenas nos espaços de negociação. “A gente chega em salas de reunião e, muitas vezes, não tem nem português, só o inglês e o espanhol. Então, eu me pego pensando na participação dos nossos anciãos, caciques e das nossas lideranças nesse processo de negociação, isso pode dificultar a incidência dos povos indígenas”, observa Wasady. Mesmo assim, pondera, não há nada que possa deter o protagonismo dos povos tradicionais no cuidado com o planeta.

“A gente está trazendo não só nós nossas vozes enquanto pessoas, mas a voz das florestas, das árvores, dos animais, porque eles não podem falar, né. E a gente está ali vivenciando, então a gente meio que se torna porta-voz de todos os seres que habitam nossos territórios.”

Idealizadora do Kuntari Katu, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, explica que o formato foi pensado para garantir não apenas a presença dos indígenas nos espaços, mas desenvolver capacidade de intervenção nos debates negociais que ocorrem nessas conferências.


Belém (PA), 21/11/2025 - Ministra do Povos Indígenas, Sônia Guajajara, fala durante divulgação dos projetos comtemplados pelo Restaura Amazônia em Terras Indígenas, na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A ministra do Povos Indígenas, Sonia Guajajara, na COP30 – Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

“Quatro representantes do Kuntari Katu já estiveram na COP16 da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia, e uma participou da COP29 do Clima em Baku, no Azerbaijão. Na preparatória de Bonn [Alemanha], 23 alunos do curso estiveram presentes para compreenderem os desafios que encontrariam em Belém. Agora, as lideranças estão incidindo nos debates da COP30, levando a pauta indígena para as mesas. Kuntari Katu significa aquele que fala bem. É isso o que esses jovens estão fazendo: falando sobre suas realidades e a importância dos territórios indígenas para a mitigação da emergência climática dentro dos espaços decisórios”, destacou a ministra.



EBC