Lula visita aldeia indígena e promete energia para 4,3 mil famílias


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou neste domingo (2) a Aldeia Vista Alegre de Capixauã, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, na Região de Santarém, no Pará. Em conversa com lideranças locais, ele disse ter ficado surpreso com a falta de energia elétrica na comunidade e prometeu que resolverá o problema.

“Uma coisa que eu estranhei. Eu pensei que tinha energia, porque eu estou vendo uma luz acesa aqui, e eu vi que todo mundo se queixou de energia”, disse o presidente.

“Hoje a energia é a coisa mais fácil para a gente fazer, porque a gente pode fazer placa solar, a gente pode preservar o ambiente, pode trazer energia para vocês, e eu prometo para vocês que vocês vão ter energia aqui na comunidade de vocês”, reforçou.

Recepção

Lula foi recebido na aldeia pela cacique Irenilce Kumaruara, que anunciou uma demanda de rede elétrica para 4.338 famílias, uma população total de mais de 13 mil indígenas.


Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (PA), 02/11/2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita à Aldeia Vista Alegre do Capixauã. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Lula prometeu energia elétrica para aldeias indígenas – Foto: Ricardo Stuckert/PR

Inseridas na Resex Tapajós-Arapiuns, as aldeias indígenas da região ainda dependem de avanço no processo de demarcação, o que deve ocorrer no ano que vem, no caso das comunidades de Vista Alegre e Escrivão, segundo garantiu a presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joência Wapichana.

“A Funai tem esse desafio. Por isso que é importante fazer esse acompanhamento porque são muitas demandas e muitos pedidos. A gente está com essa programação de [fazer] essas duas demarcações físicas no primeiro semestre do ano que vem”, destacou.   Desde o início do terceiro governo Lula, foram demarcadas 16 novas terras indígenas no país. Segundo o Palácio do Planalto, o governo superou o compromisso firmado no período de transição que previa 14 áreas homologadas.

Além da presidente da Funai, acompanharam Lula na agenda deste domingo as ministras Sônia Guajajara (Povos Indígenas), Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima) e a primeira-dama Janja da Silva.

Universidade indígena

Ainda na aldeia Vista Alegre, Lula anunciou a criação da Universidade Indígena, no próximo dia 17 de novembro, em evento que deverá ocorrer em Brasília.

“Nós já temos uma ministra indígena, a Funai indígena, o chefe da saúde indígena e falta uma universidade indígena. Vai ter a sede lá em Brasília, já tem até prédio, tanto pode ter o curso principal lá, mas todos os estados vão fazer extensão com a universidade para as meninadas fazer o curso próximo onde more e não precisar ir para Brasília”, especificou o presidente.

A visita a comunidades indígenas faz parte da agenda prévia antes da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que acontecerá no período de 10 a 21 de novembro, em Belém, no Pará. No sábado (1º), na capital paraense, o presidente participou da inauguração da ampliação do aeroporto internacional e do Porto de Outeiro, duas das principais obras de preparação logística para o evento da ONU.



EBC

Lula: COP30 fará o mundo olhar de uma forma diferente para a Amazônia


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou neste domingo (2) com moradores da comunidade do Jamaraquá, que reúne cerca mais de mil famílias de extrativistas e ribeirinhos, na Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, que fica no Oeste do Pará. A visita faz parte de uma série de agendas prévias à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que acontecerá no período de 10 a 21 de novembro, em Belém, no Pará.

Antes disso, nos próximos dias 6 e 7 de novembro, Lula vai presidir a Cúpula do Clima, que reunirá dezenas de chefes de Estado na capital paraense. Por isso, ao longo da próxima semana, o presidente permanecerá no estado. Aos ribeirinhos, ele discursou valorizando a oportunidade que a cúpula oferece de dar visibilidade à Amazônia e fazer o mundo ter um olhar diferente, que vai além da preservação da natureza.

“Essa COP30 é um momento único na história do Brasil, porque é um momento em que a gente está obrigando o mundo a olhar a Amazônia com os olhos que deve olhar para a Amazônia. Não é só pedir para a gente manter a floresta em pé”, disse.

“É preciso pedir para que a gente mantenha a floresta em pé e para ela ficar em pé, nós temos que dar sustentação econômica, educacional, de saúde para as pessoas que tomam conta dessa floresta em pé, porque essas pessoas não ganharam o que comer, as pessoas não vão tomar conta de nada”, acrescentou.

Próxima a Alter do Chão, a comunidade do Jamaraquá também é reconhecida pelo turismo de base comunitária, com trilhas por dentro da floresta e dos igarapés, e ainda pela fabricação de biojóias.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, também participou da visita. Segundo ela, o estilo de vida das famílias da região protege a floresta. “Aqui é exemplo de bioeconomia, aqui é exemplo de sociobiodiversidade, aqui é exemplo de como mantém a floresta em pé e ela gera condições de vida e dignidade para as pessoas”, disse.

“Aqui tem os extrativistas, aqui tem os artesãos e as artesãs, aqui tem os seringueiros e seringueiras, aqui são muitas as atividades que eles vão combinando ao longo do ano”, completou.

Segundo ela, os ribeirinhos sabem respeitar o clico da floresta, mantém a mata de pé por gerações, o que da dignidade às famílias. Segundo a ministra, a Flona do Tapajós reúne 1,2 mil famílias distribuídas em uma área de mais de 500 mil hectares preservados.



EBC

Investigação das mortes em operação no RJ tem graves falhas, diz ONG


A Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch afirmou que a polícia do Rio de Janeiro cometeu falhas “cruciais” na investigação de 121 mortes ocorridas durante a Operação Contenção, em 28 de outubro. Em nota pública, a organização relacionou estas falhas a um “desinteresse proposital”, por envolverem população de maioria negra e de baixa renda.

Segundo a Human Rights Watch, a polícia “não preservou o local dos tiroteios para análise, uma medida muito importante para determinar as circunstâncias das mortes”.

“Estamos muito preocupados com o fato de que etapas cruciais da investigação não foram realizadas e que provas importantes podem já ter sido perdidas”, declarou César Muñoz, diretor da Human Rights Watch no Brasil.

A operação

A Operação Contenção, que integrou 2500 policiais de diversas unidades fluminenses para atacar pontos estratégicos da facção Comando Vermelho em bairros dos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, teve tiroteios intensos e registrou a morte de 64 pessoas em seu primeiro dia, inclusive civis desarmados e crianças.

As demais mortes foram registradas em área de mata na serra da Misericórdia, após uma emboscada do Bope, tropa de elite da polícia, em uma das rotas de fuga da facção. As mortes, principalmente desse grupo, foram descobertas após moradores carregarem os corpos para uma praça no bairro da Penha, não sem antes fazerem vasto registro do cenário de barbárie em celulares.

Antes do meio do dia 29, quarta-feira, essas imagens já circulavam, inclusive fora do Rio de Janeiro. Familiares dos mortos relataram sinais de rendição, como mãos e pernas amarrados, e de execução e tortura de seus entes, aos jornalistas que registraram a fileira de corpos. Há ainda, afirma a Human Rights Watch, uma predominância de negros e uma quase totalidade de pobres entre as vítimas.

Na avaliação da entidade, a ausência de perícia e de isolamento dos locais de morte concorre para que se percam informações cruciais, como a de que os mortos realizaram ou não disparos de armas de fogo.

“As autoridades brasileiras devem garantir uma investigação rápida, completa e independente de cada uma das mortes, bem como das decisões e do planejamento que levaram a uma operação tão desastrosa”, disse Muñoz.

“O caso também mostra a necessidade urgente de o governador do Rio de Janeiro apresentar um projeto de lei para separar a perícia da Polícia Civil e investir em análises forenses independentes e de alta qualidade, que são uma parte fundamental de qualquer investigação criminal”, acrescentou.

A ONG criticou ainda a dificuldade de acesso da Defensoria Pública e de observadores independentes ao Instituto Médico Legal, para onde os corpos foram removidos. Entre as medidas recomendadas pela Human Rights Watch está a presença de peritos independentes e a condução das investigações pelo Ministério Público.

Procuradas, as polícias civil e militar do Rio de Janeiro não se manifestaram sobre as críticas relatadas nesta reportagem.



EBC

Moraes determina preservação integral de provas sobre megaoperação


O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou, em decisão publicada neste domingo (2), a preservação “rigorosa e integral” dos elementos materiais relacionados à execução da Operação Contenção, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Foi a incursão policial mais letal da história do estado, realizada na última terça-feira (28).

A decisão abrange perícias e cadeias de custódia. Alexandre de Moraes atendeu a um pedido formulado pela Defensoria Pública da União (DPU) e também assegurou o controle e averiguação dos elementos materiais por parte Ministério Público, facultado o acesso às informações também pela própria DPU no estado do Rio de Janeiro.

A nova medida se deu nos autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 635, conhecida como a ADPF das Favelas e originada em ação protocolada em 2019 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB).

O ministro destacou que a determinação segue o que foi fixado pelo Plenário do STF no julgamento do mérito da ação, segundo o qual devem ser preservados os vestígios de crimes e assegurada a independência técnica das perícias em investigações de crimes contra a vida. O governador do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, deverá ser intimado ainda neste domingo para garantir o cumprimento da decisão.

Em abril deste ano, STF definiu diversas medidas para combater a letalidade policial durante operações da Polícia Militar contra o crime organizado nas comunidades do Rio de Janeiro. Após a finalização do julgamento da ADPF nº 635, diversos órgãos, incluindo a Defensoria Pública de União e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), ficaram responsáveis pelo monitoramento do cumprimento da decisão.

Na última semana, a discussão sobre a ADPF das Favelas voltou à tona com a deflagração da Operação Contenção, em uma tentativa de frear o avanço territorial da facção Comando Vermelho na cidade. Na ocasião, o governador Claudio Castro voltou a criticar a decisão do Supremo e chamou a ADPF de “maldita”.

Moraes marcou para a próxima segunda-feira (3) uma reunião com o governador do Rio de Janeiro e outras autoridades, para tratar da Operação Contenção. Durante o encontro, o governador deve apresentar os 18 esclarecimentos solicitados pelo ministro sobre a operação.

Audiência pública

O ministro Alexandre de Moraes ainda designou audiência conjunta para a próxima quarta-feira (5), às 10h, na sala da Primeira Turma do STF, com a participação de diversos órgãos e entidades, como o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro; Instituto Anjos da Liberdade; Associação Direitos Humanos em Rede – Conectas Direitos Humanos; Associação Redes de Desenvolvimento da Maré – Redes da Maré; Educação e Cidadania de Afrodescendentes Carentes – Educafro; Justiça Global; Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência; Coletivo Fala Akari; Coletivo Papo Reto; Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial; Movimento Negro Unificado (MNU); Centro pela Justiça e o Direito Internacional – CEJIL; Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ; entre outros.

Em outro ponto da decisão deste domingo, o ministro indeferiu pedidos de diversas entidades para participar como amicus curiae e os requerimentos de participação nas audiências a serem realizadas no dia 3 de novembro de 2025.



EBC

SP: Uma pessoa morre e 40 se ferem em queda de estrutura durante festa


Uma pessoa morreu e cerca de 40 ficaram feridas com a queda de uma estrutura metálica montada no Aeropark Clube de Voo Desportivo, em Regente Feijó, no interior de São Paulo, com as fortes rajadas de vento, de aproximadamente 95 km/h, que atingiram o estado.

O local, na Rodovia Raposo Tavares, 555 (SP-270), km 555, sediava uma festa de estudantes de um curso de medicina.

Um homem de 47 anos foi atingido por um galho de uma árvore e teve traumatismo craniano. Ele foi socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.

Equipes da defesa civil de Presidente Prudente e de Regente Feijó, além do corpo de bombeiros do estadual de São Paulo atuaram no socorro de cerca de 40 vítimas, conforme informado pelas equipes que estiveram no local.

Todas foram levadas para o Hospital Regional e para a Santa Casa de Presidente Prudente. Das vítimas atendidas, três permanecem internadas, e as demais tiveram ferimentos leves e foram liberadas após o atendimento.

Por meio de suas redes sociais, a comissão de formatura que promovia o evento e a empresa Euphoria, contratada para a organizá-lo, disseram que os ventos intensos atingiram a estrutura instalada no local, resultando no acidente. Ambas expressaram pesar e disseram que estão auxiliando as vítimas e familiares desde o momento do acidente.



EBC

Mãe denuncia execução em operação e cobra políticas para a juventude


“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi ao Senhor: Ele é meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e Nele confiarei”.

Este é um trecho do Salmo 91, da Bíblia, que a confeiteira Tauã Brito, de 36 anos, recomendou ao filho Wellington, de 20 anos, durante a operação policial contra o Comando Vermelho, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na última terça-feira (28), na cidade do Rio de Janeiro. Ele foi um dos 121 mortos na ação, que é considerada a mais letal da história do estado.

>> Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece

Ao receber a Agência Brasil na casa de um familiar, na zona norte do Rio, ela lembrou das últimas conversas com o jovem e denunciou que encontrou seu corpo com as mãos amarradas, o que indica que estava rendido antes de ser morto.

“Se um policial conseguiu chegar no meu filho, amarrar o braço dele e dar uma facada nele, é porque ele não oferecia mais perigo. Então, por que não levou preso? No Brasil, não tem pena de morte. Se a pessoa não oferece perigo, tem que ser presa”, critica Tauã, que tem recebido uma série de mensagens ofensivas e classifica a operação como um massacre.

Mãe solo de Wellington durante a maior parte da vida dele, Tauã teve o filho aos 15 anos. Ela saiu da casa dos pais e viveu ao lado do pai da criança por sete anos, quando se separou e o criou com a mãe, em uma casa simples no Complexo da Penha.

Ela conta que se desdobrou como garçonete, vendedora de chips de celular e de doces para conseguir que Wellington completasse o Ensino Médio e até se empregasse em um supermercado, como jovem aprendiz, quando ele tinha entre 14 e 15 anos.

“Wellington foi uma criança muito amada, brincalhona, dormia na cama com a avó até os 7 anos. Ele sempre foi tranquilo, estudioso e namorador. Sempre tinha uma novinha”, ri a mãe. “Tem um monte postando foto dele. Ele era lindo, meu menino”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 02/11/2025 - Tauã Brito com seu filho Wellington Brito. Foto: Tauã Brito/Arquivo Pessoal

Tauã Brito com o filho Wellington Brito quando ainda criança. Foto: Tauã Brito/Arquivo Pessoal

É com muito carinho que a irmã, de 7 anos, também se recorda dele, durante a entrevista. Enquanto Tauã repassava vídeos dos dois juntos no celular, mostrando os dois filhos passeando de moto pela comunidade, gravando “dancinhas” para as redes sociais ou jogando dominó antes de dormir, a menina lembra.

“Eu gostava de brincar com meu irmão, sair para tomar açaí, dar um rolê de moto. Nós fazíamos muitas coisas juntos”, confidenciou.

Tauã conta que a família vivia unida, Wellington voltava todos os dias para dormir em casa e eles frequentavam a igreja e as festas religiosas juntos. Até que a chegada da adolescência trouxe apreensão à mãe quando o filho foi cooptado pelo tráfico de drogas.

“Eu falei para ele, ‘pelo amor de Deus, meu filho, vamos embora desse lugar, vamos viver com a minha avó, em Rio das Ostras [cidade da Região dos Lagos do Rio de Janeiro]’, mas ele recusava”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 02/11/2025 -Tauã Brito, mãe de Wellington, morto durante a Operação Contenção no Complexo da Penha, mostra foto do filho em seu celular. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tauã Brito, mãe de Wellington, morto durante a Operação Contenção no Complexo da Penha, mostra foto do filho em seu celular. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Dia da operação

Durante a operação policial que reuniu 2,5 mil policiais nos complexos, Tauã conta que começou a falar com o filho às 2h da manhã. 

“Na verdade, eu pedi, eu implorei para ele ficar em casa, para ele não sair, mas eu não consegui evitar”.

Eles trocaram muitas mensagens durante a madrugada, com ela recomendando o salmo bíblico e implorando para ajudar, por exemplo, mediando uma rendição. Mas já não havia tempo. 

No início da manhã, Wellington estava na mata, região da Serra de Misericórdia, onde os policiais do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar fizeram um “muro”, impedindo tanto moradores de subirem quanto quem estava lá de escapar. Sem mais respostas, Tauã tentou ir até lá, mas foi impedida pelos policiais da Operação Contenção.

De noite, como ela já tinha contado em entrevista à TV Brasil, Tauã esteve na porta do Hospital Estadual Getúlio Vargas, onde chegaram os primeiros corpos das vítimas, e implorou ajuda da imprensa para conseguir entrar na mata sem a ameaça de ser alvejada por policiais, mas o apelo foi em vão.

 


Rio de Janeiro (RJ), 02/11/2025 -Tauã Brito, mãe de Wellington, morto durante a Operação Contenção no Complexo da Penha.  Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tauã Brito, mãe de Wellington, morto durante a Operação Contenção no Complexo da Penha, e sua outra filha, de 7 anos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quando os policiais saíram, ela subiu para a mata junto com o pai de Wellington. Com a luz do celular, gritou, procurou pelo filho e o encontrou, em meio a outros corpos, à 1h da manhã, com punhos amarrados, um corte de faca no braço e um tiro na cabeça.  

“Gente, eu nunca falei que meu filho era certo. Eu sempre falei assim ‘abençoo a sua vida, mas não o que você faz. Eu nunca fui a favor do que ele fazia, nunca peguei o dinheiro dele para nada. Eu nem sei o quanto recebia. Eu sempre fiz meu bicos em restaurante, fazia bico de garçonete no pagode, sempre fui atrás”. 

“Eu não apoiava o que ele fazia, mas ele tinha o direito de se entregar, de estar preso”, lamentou.

Tauã velou o corpo do jovem durante a madrugada e manhã de quarta-feira (29), quando 80 pessoas assassinadas também foram retiradas da mata e enfileiradas por moradores na Praça São Lucas, no Complexo da Penha. A imagem fazia referência à Chacina de Vigário Geral, que ceifou 21 vidas há 30 anos. 

“O governador [do Rio, Cláudio Castro] disse que essa foi uma operação bem-sucedida. Bem-sucedida para quem? O que mudou aqui dentro? A plataforma política dele é essa: oferecer corpos?”, criticou.

“Se o governador falasse assim: ‘olha, entrei na comunidade, a polícia deixou cento e poucos mortos, mas eu tô oferecendo isso aqui para vocês, pros jovens poderem mudar de vida. Eu tô entrando com esse recurso’. Mas isso não aconteceu. Ele entrou, matou e acabou. Não tem nada para quem fica, para quem viu o estado desses corpos no chão. A gente, quando estava na porta do IML, viu dois ônibus da polícia debochando das famílias, rindo, batendo palma, dando gargalhada”.

Liberação do corpos

A mãe também denuncia o descaso na retirada dos corpos, que ficaram muitas horas na comunidade, e na identificação pelo IML. Ela acredita que os corpos deveriam ter sido distribuídos para outros IML do estado, e tratados com mais dignidade.

“Os corpos ficaram horas na mata e no sol. Na quarta-feira, demorou para a defesa civil vir buscar. Então, o corpo já entrou em estado de decomposição. Depois que saiu daqui, quando chegaram no IML, os corpos ficaram no chão, do lado de fora, muitas horas depois de estarem mortos”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

 Dezenas de corpos na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Com essa situação, Tauã mudou os planos para o enterro de Wellington. “Eu queria ver o meu filho, me despedir, mas teve de ser com caixão fechado. Eu pedi para abrir, só que, quando abriu, pedi para fechar”. 

Tauã conta que ainda não conseguiu voltar para casa, mas que reuniu forças para falar sobre o ocorrido como forma de defender a vida. Na visão dela, faltam oportunidades e políticas públicas para os jovens de favela e sobram violência e morte. Ela busca transformar o luto em denúncia, para que as circunstâncias da letalidade na Operação Contenção sejam esclarecidas e para que outros jovens não sejam iludidos pelo crime organizado.

“A minha guerra acabou, mas tem muitas mães pedindo socorro para seus filhos, e minha luta será por eles também”, explicou.

“Eu quero falar, realmente, sobre a minha dor, sobre o que aconteceu naquele dia, sobre o direito que me foi tirado, de chegar ao meu filho para ele poder ser preso, porque, daqui a pouco, isso vai estar esquecido, mas existem outros Wellingtons e mães que precisam ouvir”, terminou.

 


Rio de Janeiro (RJ), 02/11/2025 -Tauã Brito, mãe de Wellington, morto durante a Operação Contenção no Complexo da Penha.  Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tauã Brito, mãe de Wellington, morto durante a Operação Contenção no Complexo da Penha. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Governo do Rio

Em entrevistas coletivas concedidas à imprensa durante a semana, autoridades da segurança pública do governo do estado do Rio de Janeiro consideraram que a Operação Contenção foi um sucesso, afirmaram que os criminosos que se entregaram foram presos e alegaram que os mortos foram os que tentaram matar os policiais em ação, que buscavam o cumprimento de 100 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão. 

Segundo disseram à imprensa, o conflito foi deslocado para área de mata, onde ocorreu a maior parte das mortes, para preservar a população dos complexos de favelas, considerados o “quartel general do Comando Vermelho”.

O governador, Cláudio Castro, chegou a avaliar que as únicas vítimas foram os quatro policiais mortos. Já o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, disse que a ação foi planejada, mas que o resultado “quem escolheu foram eles”. 

“Chacina é a morte ilegal. O que fizemos ontem foi ação legítima do Estado para cumprimento de mandados de apreensão e prisão”, afirmou.

Entidades de defesa dos direitos humanos e movimentos de favelas classificaram a ação como “chacina” e “massacre” e cobram que a investigação seja feita de forma independente.


Rio de Janeiro (RJ), 26/10/2025 – Mesa com autoridades do Estado do Rio de Janeiro durante coletiva de imprensa sobre a Operação Contenção na Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 Mesa com autoridades do Estado do Rio de Janeiro durante coletiva de imprensa sobre a Operação Contenção na Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 



EBC

Em igreja na Penha, fiéis rezam por paz e proteção em semana de horror


No bairro da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, fiéis foram à Paróquia Bom Jesus da Penha para rezar pelos entes queridos neste Dia de Finados. As orações se estenderam também às famílias dos 121 mortos na Operação Contenção, realizada em favelas vizinhas na última terça-feira (28) e considerada a maior e mais letal do Rio de Janeiro.

“Todos que vêm, sejam mães, familiares, amigos, nesse momento de dor, nós temos acolhido, rezado e intercedido por essas pessoas”, diz o padre Marcos Vinícius Aleixo, que celebrou missa neste domingo (2).

Segundo ele, as pessoas estão com medo e até mesmo a frequência nas missas diminuiu. “A insegurança reina no bairro por conta disso. Muitas pessoas ficam com medo de sair de casa, com medo de vir até a missa”, diz.  

“O tiro, o barulho, isso tudo traz traumas, traz crise de ansiedade, traz medo às pessoas que lá dentro moram, que são pessoas de bem e que estão ali lutando para viver, muitas vezes, porque não tem outra oportunidade de sair dali, mas são pessoas de bem, são pessoas que honestamente trabalham e têm a sua vivência diária”, acrescenta o padre.

 


Rio de Janeiro (RJ), 02/11/2025 - O padre Marcos Vinícius Aleixo celebra missa em seu ultimo dia na Paróquia Bom Jesus da Penha. Secretaria municipal de Assistência Social faz plantão de atendimento às famílias do Alemão e Vila Cruzeiro na Paróquia Bom Jesus da Penha, na Penha, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O padre Marcos Vinícius Aleixo celebra missa em seu ultimo dia na Paróquia Bom Jesus da Penha. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A igreja fica a um quilômetro (Km) da Praça São Lucas, onde foram reunidos corpos retirados de uma área mata entre os complexos do Alemão e da Penha na madrugada depois da operação policial. Segundo a Secretaria de Pública do Rio de Janeiro, 121 pessoas foram mortas, dentre elas, quatro policiais e 117 civis. A operação cumpriu 20 dos 100 mandados de prisão emitidos pela justiça e incluía também 180 mandados de busca e apreensão. Outras 93 pessoas foram presas em flagrante. O alvo da operação era o Comando Vermelho, que controla o território.

Entre o crime organizado e operações policiais, a população se vê encurralada, de acordo com uma moradora do bairro, que não quis se identificar. “A gente não tem sossego. [A operação] Afeta. Claro que afeta, principalmente porque você tá encurralada”, diz.

No dia a dia, ela diz que tem dificuldades para ir e vir por conta do crime organizado. “Atrapalha até as ruas, as pessoas não podem passar. Ficam cobrando até pedágio. Isso não existe, gente”, diz. “É tranquilidade que eu cobro. A minha cobrança é essa. Porque a gente não tem mais paz, não tem sossego. Você vai pedir um Uber, o Uber não quer entrar aqui porque está na Penha. Olha que absurdo”.

A operação sofreu diversas críticas, sobretudo por indícios de abuso de poder por parte dos policiais, por organizações nacionais e internacionais, como o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU). Além disso, famílias dizem que encontraram marcas de tortura nos corpos dos parentes mortos e afirmam que têm provas de que eles tentaram se entregar. Por outro lado, o governo do estado afirma que aqueles que se entregaram foram presos, e que as pessoas que foram mortas entraram em conflito com os agentes.

Para outro morador, que não quis se identificar, a operação dá uma sensação de que algo está sendo feito. “O Rio de Janeiro  todo está meio largado em questão de segurança. Isso [a operação], de uma certa forma, acaba trazendo uma sensação de que estão fazendo algo, né? Porque são dois lados. Ninguém é bonzinho”, diz.

Uma moradora que estava no complexo da Penha durante a operação diz que foi um dia de horror. “Foi muito ruim para nós, porque impactou a vida de muita gente, dos moradores, das crianças, foi muito tiroteio. E isso é ruim para quem não tem envolvimento com nada, pra gente que é morador, pessoas de bem”.

Perguntada se acredita que algo muda com a operação policial, ela é taxativa: “Nada”.

 


Rio de Janeiro (RJ), 02/11/2025 - Secretaria municipal de Assistência Social faz plantão de atendimento às famílias do Alemão e Vila Cruzeiro na Paróquia Bom Jesus da Penha, na Penha, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Secretaria municipal de Assistência Social faz plantão de atendimento às famílias do Alemão e Vila Cruzeiro na Paróquia Bom Jesus da Penha, na Penha, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil



EBC

Parapan de Jovens: Brasil vai ao pódio 10 vezes no tênis de mesa


O Brasil ganhou no sábado (01) as primeiras medalhas nos Jogos Parapan-Americanos de Jovens de Santiago 2025. No tênis de mesa, quatro brasileiros subiram ao lugar mais alto do pódio e conquistaram o ouro, dois ficaram com a prata, e quatro ganharam o bronze. Duas finais foram entre brasileiros.

A competição, para atletas de 14 a 23 anos, segue até 9 de novembro em duas regiões do Chile: na metropolitana de Santiago e em O’Higgins, ao sul da capital.

Na disputa da classe 2 até a 5, o catarinense Maycon Oliveira ganhou do também catarinense Arthur Costa, por 3 sets a 2, com parciais de 10/12, 11/3, 11/6, 8/11 e 11/3.

Na classe 9, Lucas Fonseca Segregio fez 3 x 2 em João Pedro Ribeiro Possas (11/9, 4/11, 7/11, 11/8 e 11/8) e ficou com o bronze.

Duas brasileiras conquistaram o ouro: na classe 7 (andantes), a goiana Lethicia Lacerda, que venceu a venezuelana Maria Victoria Azuaje por 3 sets a 0 (11/4, 11/3 e 11/2); e, na classe 8 (andantes), a carioca Sophia Kelmer, que fez 3 sets a 2 na chilena Joseline Yevenes, com parciais de 7/11, 11/9, 11/5, 11/13 e 11/6.

O paulista Jean Carlos de Souza Mashki, da classe 8, foi o último brasileiro a jogar. Diante do costarriquenho Steven Roman Chinchilla, ele também venceu por 3 sets a 2, com parciais de 7/11, 11/4, 11/8, 7/11 e 11/8. Já o mineiro Lucas Fonseca conquistou a medalha de prata, sendo derrotado pelo argentino Ethan Skiarsk por 3 sets a 0, com parciais de 11/8, 11/7 e 11/4.

Tênis em cadeira de rodas

Foram três participações brasileiras no tênis em cadeira de rodas no dia, com três vitórias. A mineira Vitória Miranda venceu a peruana Kate Valentina Valenzuela Rivera por 2 sets a 0, com um duplo 6/0.

Na chave de simples, o mineiro Lucas Daniel Dutra superou o peruano Angel Jesus Gonzales Aguilar, por 2 sets a 0 (6/2 e 6/0). Mais tarde, ele voltou à quadra ao lado de Luiz Calixto, também de Minas Gerais, nas duplas, e venceu os argentinos Ian Davidson e Joaquin Nicolas Lezama, por 2 sets a 0, com parciais de 6/1 e 6/0.

Vitórias no goalball

Pela segunda rodada do torneio de goalball, a seleção feminina venceu o Canadá por 5 a 3 e manteve os 100% de aproveitamento na competição – já havia vencido a Argentina.

A seleção masculina também levou a melhor sobre os canadenses: 8 a 3. Este foi o primeiro triunfo da equipe, que empatou com os argentinos na estreia.

Derrota no basquete

O Brasil também entrou em quadra contra o Canadá no basquete em cadeira de rodas 5×5. Estreando na competição, os brasileiros foram derrotados por 76 a 34.

Neste domingo, a equipe volta a entrar em quadra, desta vez contra a Argentina, que também foi derrotada na estreia – 65 a 62 para a Colômbia.

Confira os resultados

Tênis em cadeira de rodas

Lucas Daniel Dutra 2 x 0 (6/2 e 6/0) Angel Jesus Gonzales Aguilar (PER) (tênis em CR)

Vitória Miranda 2 x 0 (6/0 e 6/0) Kate Valentina Valenzuela Rivera (PER) (tênis em CR)

Luiz Calixto e Lucas Daniel Dutra 2 x 0 (6/1 e 6/0) Ian Davidson e Joaquin Nicolas Lezama (ARG)

Goalball

Brasil 5 x 3 Canadá (Seleção Feminina)

Brasil 8 x 3 Canadá (Seleção Masculina)

Basquete em cadeira de rodas 5×5

Brasil 34 x 76 Canadá

Tênis de mesa ─ finais

Classe 7

Lethicia Lacerda 3 x 0 Maria Victoria Celis Azuaje (VEN) (11/4, 11/3 e 11/2)

Classe 2-5

Maycon Antônio de Oliveira 3 x 2 Arthur Costa Branco (10/12, 11/3, 11/6, 8/11 e 11/3)

Classe 8-10

Sophia Kelmer 3 x 2 Joseline Yevenes (CHL) (7/11, 11/9, 11/5, 11/13 e 11/6)

Classe 8

Jean Carlos de Souza Mashki 3 x 2 Steven Roman Chinchilla (CRC) (7/11, 11/4, 11/8, 7/11 e 11/8)

Classe 9

Eithan Skliarsky (ARG) 3 x 0 Lucas Fonseca Segregio (11/8, 11/7 e 11/4)

Tênis de mesa ─ brasileiros nas semifinais

Classe 1-3

Belen Ignacia Fuentes Parada (CHI) 3 x 2 Nicole dos Santos (11/5, 11/4, 7/11, 9/11 e 11/3)

Classe 4-5

Ana Beatriz de Moraes 0 x 3 América Citlalli Alvarez (MEX) (12/14, 7/11 e 7/11)

Classe 8-10

Karina Becker 0 x 3 Joseline Yevenes (CHI) (9/11, 17/19 e 10/12)

Classe 9

Lucas Fonseca Segregio 3 x 2 João Pedro Ribeiro Possas (11/9, 4/11, 7/11, 11/8 e 11/8)



EBC

Ataque a trem em Cambridge deixa nove pessoas em estado grave


Várias pessoas foram esfaqueadas na noite de sábado (1º), num trem em Cambridge, no Reino Unido. Ficaram feridos dez passageiros, sendo que nove foram hospitalizados em estado grave. A polícia deteve dois suspeitos, ambos britânicos, e investiga as circunstâncias do ataque. Não há, contudo, indícios de que tenha sido um atentado terrorista.

“Dez pessoas foram levadas ao hospital, sendo que nove delas sofreram ferimentos graves”, disse o comunicado da Polícia de Transportes Britânica. Acrescentou que “este incidente foi declarado grave e a Polícia Antiterrorista apoia a nossa investigação, enquanto trabalhamos para estabelecer todas as circunstâncias e motivações do incidente”.

Numa entrevista neste domingo (2) a Polícia de Transporte Britânica anunciou de que não há indícios de que se trate de um ataque terrorista. As autoridades consideram que ainda é cedo, apesar disso, para determinar as causas do incidente.

As autoridades indicam também que há dois detidos sob suspeita de homicídio. Eles são britânicos.

Causas

As causas das agressões ainda estão sendo investigadas, num trabalho que conta com a participação da Polícia Contraterrorista, mas o ministro da Defesa, John Healey, disse que tudo indica que foi um incidente isolado.

O primeiro-ministro inglês, Keir Starmer, reagiu e considerou o ataque “profundamente preocupante”.

O comboio de alta velocidade tinha como destino Londres e o alerta foi dado pelos passageiros. Quem testemunhou o ataque descreve cenas de pânico e confusão.

A polícia e os serviços de emergência foram mobilizados para a estação de Huntingdon, na região de Cambrigde, onde o comboio parou.

A Polícia de Transportes Britânica disse que “várias pessoas” foram esfaqueadas no comboio de Doncaster para Londres King’s Cross, quando este se dirigia para Huntingdon. Ela não forneceu um motivo para o ataque. Duas pessoas foram presas na estação, que fica a cerca de 120 quilómetros ao norte de Londres. Os nomes dos detidos ainda não foram anunciados.

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EBC

Especialistas criticam retórica de governadores sobre combate ao crime


Conflitos não são administrados apenas com tiros de fuzil, mas também com discursos políticos. Em paralelo às operações policiais nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, governadores alinhados ao chefe da administração fluminense, Cláudio Castro, criaram o “Consórcio da Paz”, projeto de integração para combater o crime organizado no país.

O sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), critica o termo. Para ele, trata-se de uma estratégia discursiva que inverte o significado real da operação que deixou 121 mortos.


Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após ação policial da Operação Contenção. Foto: Eusébio Gomes/TV Brasil

Corpos são enfileirados na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após ação policial da Operação Contenção, na última terça-feira (28). Foto: Eusébio Gomes/TV Brasil

“Os governadores erraram no nome. Deveria se chamar Consórcio da Morte, porque é isso que eles estão propondo. Certamente não é a paz”, diz Cano. “Retoricamente, não vai pegar bem e, cada vez que usarem o termo, vão ser lembrados da quantidade de mortes que os seus governos produzem. A maioria dos governadores de direita estão promovendo a letalidade policial”.

Sete governadores integram o “Consórcio da Paz”. Além de Castro, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais; Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina; Eduardo Riedel (Progressistas), do Mato Grosso do Sul; Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás; e Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal.

“Narcoterrorismo”

Sociólogos, cientistas políticos e especialistas em segurança pública ouvidos pela Agência Brasil analisaram o vocabulário adotado pelas autoridades nos últimos discursos. E apontaram para os usos políticos e simbólicos dos termos relacionados à operação mais letal já registrada no Brasil.

Entre as palavras recorrentes, está “narcoterrorismo”. Ele foi usado por Castro, Tarcísio e Zema para se referir às facções criminosas, principalmente as maiores que tem Rio de Janeiro e São Paulo como centros de poder.

“Isso é mais uma bobagem que atrapalha a polícia, a segurança pública, a sociedade e o próprio governo. Da mesma forma como usam ‘narcomilícia’ e outras categorias mais antigas como ‘Estado paralelo’. Isso, na verdade, oculta incompetências, incapacidades e oportunismos políticos”, diz Jacqueline Muniz, antropóloga e cientista política, professora do departamento de segurança pública da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Quando você diz que está diante de um narcoterrorismo, você está dizendo que precisa de mais poder, mais dinheiro, mais orçamento e que não precisa dar satisfação do que vai fazer”, complementa.


Rio de Janeiro - Operação policial após ataques às bases das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Operação policial após ataques às bases das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, no início do ano.  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para Ignacio Cano, o termo é errado também do ponto de vista conceitual. “Terrorismo normalmente é associado a objetivos políticos. É o uso indiscriminado da violência contra civis para perseguir esses objetivos. Um narcoterrorista não teria nenhuma motivação política. O objetivo é o mesmo de todo criminoso, que é o lucro. O termo é uma contradição em si mesmo”, explica o sociólogo.

No Brasil, a Lei n° 13.260, de 2016, define que: “terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.

Facções de tráfico de drogas são classificadas pela legislação brasileira como organizações criminosas. E é dessa forma que o governo federal, especialmente o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, tem se posicionado.

Um grupo de deputados está tentando mudar isso por meio do Projeto de Lei 724/25, que amplia o conceito de terrorismo para incluir o tráfico de drogas ilícitas. O projeto é de autoria do deputado Coronel Meira (PL-PE) e foi aprovado há algumas semanas na Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados.

Ainda será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), antes de ser votado pelo Plenário da Câmara. Para virar lei, precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.

Pressão internacional

Esse entendimento tem recebido pressão internacional de políticos de direita. Os governos de Javier Milei, na Argentina, e Santiago Peña, no Paraguai, classificaram recentemente as organizações criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (CV) como terroristas. Os Estados Unidos sugeriram que o Brasil fizesse o mesmo em visita da comitiva norte-americana ao país em maio deste ano.

Os especialistas em segurança pública entendem que a pressão de governadores no Brasil pelo uso de “narcoterrorista” é uma forma de alinhamento político com essas forças externas. Dessa forma, o debate é transferido do campo policial para o geopolítico. Para eles, o termo, se adotado no país, fragilizaria a democracia e aumentaria o risco de interferências internacionais.


Rio de Janeiro (RJ), 23/03/2024 – O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro durante coletiva de imprensa no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), na Cidade Nova, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Governadores de direita se alinharam ao governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, na política adotada por ele de enfrentamento ao tráfico de drogas. A última operação deixou 121 mortos, sendo quatro policiais. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“Uma forma de os Estados Unidos intervirem de forma mais efetiva no nosso território é justamente apelar para o que os norte-americanos temem historicamente, principalmente depois do 11 de setembro, que é a questão do terrorismo”, diz Jonas Pacheco, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança.

“É um discurso que trata de uma questão de dominação da América Latina. Os países que têm grupos classificados como terroristas claramente não são alinhados ideologicamente com o governo Trump”, complementa.

“O terrorismo é usado pelo presidente dos Estados Unidos para cometer execuções sumárias na costa da Venezuela e da Colômbia. Termo foi adotado pelos governos de El Salvador e Equador também. São tentativas de evadir qualquer limite legal. Leis terroristas alongam prazos de prisão provisória e diminuem garantias processuais. Mas, importante destacar, nenhuma lei antiterrorista autoriza execução sumária de pessoas”, diz Ignacio Cano.

“Guerra às drogas”

Outra categoria semântica muito comum entre as autoridades estaduais é o de “guerra”. As polícias militares estariam diante de conflitos semelhantes aos sofridos em outras realidades do Leste Europeu, África e Oriente Médio.

Os cientistas políticos e sociólogos são categoricamente contrários à terminologia, por uma série de consequências simbólicas e materiais que ela produz.

“Quando você pauta o debate na ideia de guerra, você valida ações que barbarizam todo um território. Quem é o inimigo nessa guerra? É o traficante que está na Faria Lima lavando o dinheiro? Não, é o traficante que está na favela. É o pobre e o preto que moram em territórios de extrema vulnerabilização e precarização”, diz Jonas Pacheco.

“Segurança pública é para gerar segurança, não é para matar. Uso da força deve respeitar as devidas normativas legais. Não é um fim em si mesmo. O fim é gerar segurança. O pacto social prevê que o Estado deve garantir a preservação da vida”, complementa.

“Sempre bom lembrar que, se a sociedade autoriza a polícia a agir sem controles e parâmetros legais, sem fiscalização do Ministério Público, todos nós estamos em risco. Se as pessoas acham que só os moradores do Alemão e da Penha vão sofrer as consequências, estão muito enganadas”, diz Ignacio Cano.

“O objetivo é trazer a guerra para dentro das cidades. E nada melhor do que uma guerra contra o crime. Mas não se trata de combater crime nenhum. Se trata de produzir repressão e espetáculo. Se queremos resolver, temos que mudar também essa linguagem”, analisa Jacqueline Muniz.

“Estamos falando de um projeto autoritário onde a insegurança se torna política pública. Quanto maior a insegurança, melhor para essas autoridades, porque nós somos fidelizados pelo medo. Diante da ameaça, todos nós podemos abrir mão das garantias individuais e coletivas em favor de quem possa nos proteger e, depois, nos tiranizar”, complementa.



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